terça-feira, 24 de julho de 2012

Atividade eletromiográfica no agachamento em diversas posições



Durante muitos anos, fisioterapeutas dedicados à reabilitação de atletas utilizaram os exercícios em cadeia cinética aberta (CCA), no qual os movimentos são desenvolvidos com o segmento distal livre, para o fortalecimento da extremidade inferior. Todavia, uma melhor compreensão da cinesiologia e da biomecânica proporcionou a atual aplicação dos exercícios em cadeia cinética fechada (CCF), os quais foram incorporados aos protocolos de reabilitação, principalmente, da articulação do joelho. Este tipo de exercício envolve movimentos multiarticulares executados com a extremidade distal fixa.

Algumas suposições são apresentadas para a utilização de exercícios em CCF do ponto de vista biomecânico, sugere-se que esses exercícios são mais seguros e produzem estresses e forças que oferecem menor risco às estruturas em recuperação quando comparados com os exercícios em CCA. A co-ativação ou co-contração dos músculos agonistas e antagonistas ocorrem durante os movimentos em CCF, a fim de proporcionar a estabilização articular. Além disso, os exercícios em CCF são igualmente eficazes na produção de força no quadríceps femoral, quando se compara com os exercícios em CCA.

A co-contração tem sido vista de maneira positiva, como algo necessário para ganhos em estabilidade dinâmica. Devido a sua aplicabilidade, a mensuração da co-contração se torna relevante em diversas áreas que têm como foco de interesse o movimento
humano.

Dentre os exercícios em CCF, o agachamento, tríplice flexão do membro inferior, vem sendo considerado efetivo no desenvolvimento da musculatura do quadril, joelho e tornozelo, por meio do aumento da atividade do quadríceps, isquiotibiais e tríceps sural. Apesar disso, ele deve ser utilizado cautelosamente nos indivíduos portadores de alterações patelofemorais (PF) e do ligamento cruzado posterior (LCP), especialmente nos maiores ângulos de flexão do joelho, ocasião em que as forças de translação e compressão aumentam nessa articulação.

Durante o agachamento, a linha de gravidade se desloca posteriormente ao eixo do joelho, aumentando o torque flexor. Os isquiotibiais promovem uma estabilização no joelho mediante uma tração posterior na tíbia para contrapor a força anterior imposta pelo quadríceps. O grau de ativação em que os músculos isquiotibiais atuam na pelve, provavelmente, depende dos ângulos do joelho e quadril e dos comprimentos musculares individuais. Dessa forma, a tensão dos isquiotibiais pode ser aumentada com uma ligeira flexão anterior do tronco, o que também move o centro de gravidade anteriormente, diminuindo o torque de flexão do joelho e reduzindo, assim, a força de translação tibial e a compressão na articulação patelofemoral.

Prosseguindo o agachamento, um torque de flexão também é criado no tornozelo quando a linha de gravidade se desloca anteriormente à articulação talo-crural. O sóleo desacelera a dorsiflexão do tornozelo e cria um torque de extensão no joelho tracionando a tíbia posteriormente, o que minimiza a força de cisalhamento anterior nesta articulação. Desse modo, toda a cadeia cinética da extremidade inferior é recrutada pela aplicação de uma força axial no segmento distal.
Escamilla et. al. recomenda uma amplitude de 0o a 50° de flexão do joelho para os exercícios de agachamento utilizados na reabilitação, por se tratar da amplitude em que ocorrem as menores forças de cisalhamento anterior na articulação tibiofemoral. Entretanto, experimentos realizados com atletas demonstraram que os agachamentos com a coxa paralela ao solo (0°-100°) não causam lesões e instabilidade em joelhos saudáveis. Por outro lado, a utilização de cargas externas tende a aumentar a força de cisalhamento e, provavelmente, solicita maior atividade dos estabilizadores dinâmicos da articulação do joelho.

Entender e comparar as atividades musculares que ocorrem na articulação do joelho durante o exercício de agachamento é importante para determinar as posições de melhor equilíbrio muscular, tensão ligamentar e compressão articular. A atividade eletromiográfica (EMG) tem sido amplamente utilizada em estudos de análise do movimento humano, com o objetivo de investigar a função muscular, por meio da aquisição e análise de sinais elétricos produzidos pelos músculos. A amplitude do EMG estimada pela média do sinal retificado ou pelo RMS (root mean square) reflete o padrão de recrutamento ou ativação das unidades motoras que controlam um determinado músculo, havendo uma relação muito próxima do linear entre o EMG e a força gerada pelo músculo, principalmente, em contrações isométricas.
  
O Objetivo do estudo foi a comparação da atividade eletromiográfica (EMG) dos músculos reto femoral, bíceps femoral, tibial anterior e sóleo no agachamento, associando a posição de tronco ereto com 2 ângulos de flexão do joelho (40° e 60°) e a posição de tronco fletido a 45° com 3 ângulos de flexão do joelho (40°, 60° e 90°). Todas as combinações foram realizadas com e sem acréscimo de carga (10kg). A amostra foi composta por 12 indivíduos saudáveis com idade de 21,1 ± 2,5 anos e massa corporal de 62,8 ± 7,4kg. O EMG dos músculos citados foi registrado, isometricamente, em 10 posições de agachamento.

Concluiu-se que o agachamento é um exercício em CCF, multiarticular, em que ocorre uma flexão simultânea do quadril, joelho e tornozelo, proporcionando uma co-contração de diversos músculos, a qual representa um fator importante para a estabilidade dinâmica. Em concordância com alguns estudos apresentados na literatura, ocorreu co-ativação muscular significativa entre os músculos reto e bíceps femoral apenas nas posições com tronco fletido, o que ratifica a necessidade deste posicionamento do tronco durante a realização dos exercícios de agachamento proporcionando menores tensões sobre o LCA, principalmente, em angulações superiores a 60° de flexão do joelho. Adicionalmente, a coativação entre os músculos reto femoral e sóleo, abre perspectivas para a inclusão do fortalecimento específico deste último, nos programas de reabilitação, como forma de equilibrar as forças de translação tibial anterior e, conseqüentemente, reduzir a tensão no LCA.

O aumento da profundidade do agachamento acentuou bastante a diferença de ativação do reto femoral, principalmente, em relação ao bíceps femoral, o que pode indicar um desequilíbrio de forças, onde ocorre um aumento desproporcional da força extensora em relação à flexora. Como a ação extensora do joelho tende a provocar translação tibial anterior, não seria recomendável a utilização de agachamentos profundos no pós-cirúrgico precoce de reconstrução do LCA devido à maior demanda de torque exercida sobre o aparelho extensor durante os exercícios de agachamento com o joelho flexionado além de 40°.

Os resultados mostraram co-ativação entre os músculos reto femoral e bíceps femoral nas posições de tronco fletido e joelho em flexão de 40° e, entre os músculos reto femoral e sóleo, nas demais posições. Houve co-ativação entre o tibial anterior e bíceps femoral com o joelho a 40°, com o tronco ereto e fletido e, entre o tibial anterior e sóleo, nas demais posições. Quanto à ativação muscular isolada, a maior flexão do joelho no agachamento foi um fator determinante para maior ativação dos músculos, exceto para o sóleo. A posição do tronco e a carga adicional de 10kg influenciaram a ativação muscular do reto femoral, a 60° de flexão de joelho, na qual o tronco ereto proporcionou maior ativação. E para o bíceps femoral, a 40° de flexão de joelho, na qual o tronco flexionado proporcionou maior ativação. A co-ativação entre o reto femoral e o bíceps femoral na posição de tronco fletido, e entre o reto femoral e o sóleo nas demais posições, apontam para novas possibilidades de exercícios na reabilitação.

Este estudo teve um aspecto inovador, à medida que analisou a interação de vários músculos das cadeias musculares anterior e posterior que atuam na estabilização dinâmica da articulação do joelho em CCF, associando ao posicionamento do tronco com e sem carga e a vários graus de flexão do joelho. Entretanto, o estudo foi realizado em sujeitos sadios utilizando um posicionamento estático. Assim, existe a necessidade de continuar os estudos com o propósito de se estabelecer uma relação entre ativação muscular e a magnitude das forças de translação tibial em condições de posicionamento dinâmico e incluindo sujeitos com LCA deficiente, para que se possa validar a utilização destes achados em programas de reabilitação.



Sousa CO, Ferreira JJA, Medeiros ACLV, Carvalho AH, Pereira RC, Guedes DT, Alencar JF. Atividade eletromiográfica no agachamento nas posições de 40 o, 60 o e 90 o de flexão do joelho. Rev Bras Med Esporte. 2007; 13: 310-16.



Postado por: Dr. Rogerio Nascimento.

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