Lugol e Hipotireoidismo: O que dizem os Estudos Científicos
Nos últimos anos, a solução de Lugol voltou a ganhar popularidade em redes sociais e em alguns círculos de medicina alternativa. Muitas pessoas passaram a utilizá-la acreditando que poderia ajudar no tratamento do hipotireoidismo ou melhorar a função da tireoide. No entanto, a relação entre o iodo — principal componente do Lugol — e as doenças da tireoide é mais complexa do que parece. Pesquisas científicas mostram que tanto a falta quanto o excesso desse mineral podem afetar negativamente o funcionamento da glândula.
O que é a solução de Lugol
A solução de Lugol é uma mistura de iodo molecular (I₂) e iodeto de potássio (KI) dissolvidos em água. Ela foi desenvolvida em 1829 pelo médico francês Jean Guillaume Lugol. Historicamente, foi utilizada para diferentes finalidades médicas, incluindo tratamento de infecções, suplementação de iodo e preparo pré-operatório em cirurgias da tireoide.
O principal componente ativo do Lugol é o iodo, um micronutriente essencial para o organismo humano. Ele é necessário para a produção dos hormônios tireoidianos T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina), responsáveis por regular o metabolismo, a temperatura corporal, o crescimento e diversas funções celulares.
A importância do iodo para a tireoide
A glândula tireoide utiliza o iodo proveniente da alimentação para produzir seus hormônios. A ingestão diária recomendada para adultos é de aproximadamente 150 microgramas por dia, valor geralmente alcançado por meio de alimentos como peixes, frutos do mar, laticínios e sal iodado.
Quando há deficiência de iodo, o organismo pode apresentar dificuldades para produzir hormônios tireoidianos. Isso pode levar ao aumento da glândula (bócio) e ao desenvolvimento de hipotireoidismo. Em regiões do mundo onde o consumo de iodo é baixo, esse tipo de deficiência ainda é uma causa importante de doenças da tireoide.
Entretanto, em muitos países onde existe iodação do sal, a deficiência de iodo é relativamente rara. Nesses locais, a causa mais comum de hipotireoidismo costuma ser a tireoidite de Hashimoto, uma doença autoimune em que o sistema imunológico ataca a própria tireoide.
O que acontece quando há excesso de iodo
Embora o iodo seja essencial, quantidades muito elevadas podem interferir no funcionamento da tireoide. Um fenômeno conhecido como efeito Wolff–Chaikoff explica parte desse processo.
Quando o organismo recebe uma quantidade muito grande de iodo em um curto período, a tireoide reduz temporariamente a produção de hormônios. Esse mecanismo funciona como uma espécie de proteção para evitar a produção excessiva de T3 e T4.
Na maioria das pessoas, após alguns dias ocorre o chamado “escape do efeito Wolff–Chaikoff”, e a produção hormonal volta ao normal. Porém, em alguns indivíduos — especialmente aqueles com doenças tireoidianas pré-existentes — esse escape não acontece de forma adequada. Nesses casos, a produção hormonal pode permanecer reduzida, levando ao desenvolvimento de hipotireoidismo induzido por iodo.
Lugol é indicado para tratar hipotireoidismo?
Apesar de algumas divulgações populares sugerirem benefícios, a maior parte das evidências científicas não recomenda o uso de altas doses de iodo — como ocorre com o Lugol — para tratar hipotireoidismo.
Isso ocorre por alguns motivos principais:
A maioria dos casos de hipotireoidismo não é causada por deficiência de iodo.
Doses elevadas de iodo podem reduzir a produção de hormônios tireoidianos.
O excesso de iodo pode desencadear ou agravar doenças autoimunes da tireoide.
Por esse motivo, o tratamento padrão para hipotireoidismo geralmente consiste na reposição hormonal com levotiroxina, que fornece ao organismo o hormônio que a glândula não consegue produzir adequadamente.
Em quais situações o Lugol é utilizado na medicina
Apesar de não ser indicado para tratar hipotireoidismo, a solução de Lugol ainda possui algumas aplicações médicas específicas. Entre elas estão:
preparo pré-operatório em cirurgias da tireoide, especialmente em pacientes com doença de Graves
tratamento temporário em crises de hipertireoidismo grave (tempestade tireotóxica)
bloqueio da captação de iodo radioativo em situações de exposição nuclear
Nesses contextos, o objetivo é justamente reduzir temporariamente a atividade da tireoide.
Possíveis riscos do uso sem orientação médica
O uso indiscriminado de Lugol pode trazer alguns riscos para a saúde, principalmente quando utilizado em doses altas ou por períodos prolongados. Entre os efeitos descritos na literatura médica estão:
hipotireoidismo induzido por iodo
hipertireoidismo em pessoas predispostas
inflamação da tireoide (tireoidite)
agravamento de doenças autoimunes da glândula
Por essa razão, qualquer suplementação de iodo deve ser avaliada por profissionais de saúde, especialmente em pessoas que já possuem alterações tireoidianas.
Conclusão
O iodo é um nutriente fundamental para a produção de hormônios tireoidianos, mas seu consumo precisa ocorrer em quantidades adequadas. A solução de Lugol, por conter doses elevadas desse mineral, não é considerada um tratamento padrão para hipotireoidismo.
Estudos científicos indicam que o excesso de iodo pode, inclusive, prejudicar o funcionamento da tireoide em algumas situações. Dessa forma, o uso dessa substância deve ocorrer apenas quando houver indicação médica específica e acompanhamento profissional.
Informação baseada em evidências é essencial para evitar práticas que possam comprometer a saúde da tireoide.
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Por: Camila Santos
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