Poucas fibras podem prejudicar a qualidade da alimentação
As fibras alimentares são importantes para o funcionamento intestinal e também participam da interação entre alimentação, microbiota e sistema imunológico.
Frutas, verduras, legumes, feijões, aveia, sementes e cereais integrais fornecem fibras e diversos compostos bioativos.
Por isso, uma alimentação com pouca variedade de alimentos vegetais pode ser nutricionalmente menos interessante.
O mais importante é buscar diversidade alimentar, em vez de apostar em um único alimento ou suplemento.
Excesso de gordura corporal e inflamação
O tecido adiposo não funciona apenas como um depósito de energia.
Ele é metabolicamente ativo e participa da produção de diferentes substâncias.
Quando existe expansão excessiva do tecido adiposo, especialmente quando acompanhada de alterações metabólicas, podem ocorrer mudanças na atividade de células imunológicas e em mediadores relacionados à inflamação.
Isso ajuda a explicar por que o excesso de gordura corporal pode estar associado a um estado de inflamação crônica de baixo grau.
Mas é importante fazer uma ressalva:
peso corporal sozinho não determina o estado de saúde de uma pessoa.
Composição corporal, distribuição da gordura, condicionamento físico, alimentação, sono e marcadores metabólicos precisam ser avaliados em conjunto.
Sedentarismo também importa
A alimentação não é o único fator relacionado à saúde metabólica.
A prática regular de atividade física está associada a benefícios importantes para a saúde cardiovascular e metabólica.
Por outro lado, permanecer muitas horas sentado e apresentar baixo nível de atividade física pode contribuir para um perfil metabólico menos favorável.
Para quem pratica esportes, entretanto, existe outro lado da questão.
Mais exercício nem sempre significa melhores resultados.
O treinamento precisa estar acompanhado de recuperação adequada.
Treinar demais e recuperar pouco pode ser um problema
O exercício é um estímulo fisiológico.
O organismo precisa de energia, nutrientes e descanso para responder a esse estímulo.
Quando uma pessoa aumenta muito o volume ou a intensidade do treinamento sem fornecer recuperação suficiente, pode ocorrer queda do desempenho e aumento do risco de diferentes problemas relacionados à recuperação.
Entre atletas, merece atenção especial a baixa disponibilidade energética.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no Sports Medicine analisou 59 estudos e encontrou baixa disponibilidade energética em aproximadamente 44,7% dos atletas avaliados nos estudos que permitiram essa estimativa. A condição foi associada a prejuízos em diferentes aspectos do desempenho, além de alterações relacionadas à saúde óssea e maior risco de algumas complicações. (PubMed)
Isso traz uma mensagem importante para a nutrição esportiva:
Comer cada vez menos não significa necessariamente emagrecer melhor ou ter melhor desempenho.
Para atletas, a quantidade de energia disponível precisa ser compatível com as demandas do treinamento e com as necessidades fisiológicas do organismo.
Sono: uma parte esquecida da recuperação
Uma alimentação de qualidade não compensa completamente noites de sono inadequadas.
O sono participa de processos relacionados à regulação metabólica, hormonal, imunológica e neurológica.
Para quem pratica atividade física, dormir adequadamente também faz parte da recuperação.
Por isso, ao avaliar uma pessoa que treina e relata cansaço, queda de desempenho ou dificuldade de recuperação, não devemos olhar apenas para proteínas, carboidratos e suplementos.
É preciso perguntar:
Como está o sono?
Como está a recuperação?
Como está o estresse?
A ingestão energética é suficiente?
Estresse crônico também merece atenção
O estresse faz parte da vida e não é necessariamente prejudicial.
O problema é quando existe exposição persistente a situações de estresse sem recuperação adequada.
Estresse psicológico, sono ruim, excesso de treinamento e alimentação inadequada podem se acumular.
Por isso, cuidar da saúde não significa apenas mudar o que está no prato.
Também significa criar condições para que o organismo consiga se recuperar.
Álcool e inflamação
O consumo excessivo de álcool pode prejudicar diferentes sistemas do organismo e está relacionado a diversos problemas metabólicos e de saúde.
No esporte, o álcool também pode atrapalhar aspectos importantes da recuperação, como sono, hidratação e organização alimentar.
Por isso, quanto maior a frequência e a quantidade consumida, maior deve ser a preocupação com seus possíveis efeitos sobre a saúde.
Existe uma dieta anti-inflamatória?
O termo "dieta anti-inflamatória" é bastante utilizado nas redes sociais, mas é importante entender o que a ciência realmente mostra.
Não existe uma dieta única capaz de "desinflamar" qualquer pessoa.
Porém, determinados padrões alimentares apresentam resultados mais favoráveis em estudos científicos.
Um dos padrões mais estudados é o padrão alimentar mediterrâneo.
Uma umbrella review publicada em 2026 reuniu 30 revisões e 225 estudos primários. Os resultados indicaram benefícios associados ao padrão mediterrâneo em marcadores como proteína C-reativa (PCR), interleucina-6 e adiponectina, embora a certeza da evidência variasse de acordo com o desfecho. (PubMed)
Outra revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, incluindo 16 ensaios clínicos, encontrou efeitos favoráveis de uma dieta mediterrânea enriquecida com azeite em diversos marcadores inflamatórios quando comparada a uma dieta com baixo teor de gordura. (PubMed)
Portanto, a evidência apoia muito mais a ideia de um padrão alimentar globalmente saudável do que a procura por um alimento milagroso.
Como montar uma alimentação favorável à saúde?
Uma alimentação equilibrada pode incluir:
Verduras e legumes
Procure variar as cores e os tipos de vegetais consumidos ao longo da semana.
Frutas
São fontes de fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos.
Feijões e leguminosas
Feijão, lentilha, ervilha e grão-de-bico fornecem fibras, proteínas vegetais e micronutrientes.
Cereais integrais
Aveia e outros cereais integrais podem contribuir para o consumo adequado de fibras.
Peixes
Sardinha, salmão e outros peixes são fontes de ácidos graxos ômega-3.
Castanhas e sementes
Fornecem gorduras insaturadas, fibras e diferentes micronutrientes.
Azeite de oliva
É uma das principais fontes de gordura do padrão mediterrâneo.
Proteínas adequadas
A quantidade necessária depende da idade, composição corporal, objetivo, nível de atividade física e condição clínica.
E o açúcar: ele causa inflamação?
Essa pergunta precisa ser respondida com cuidado.
Não é correto dizer que qualquer consumo de açúcar automaticamente provoca inflamação crônica.
Por outro lado, uma alimentação com consumo elevado e frequente de bebidas açucaradas, doces e produtos ultraprocessados pode contribuir para uma alimentação de pior qualidade e, dependendo do contexto, para excesso de ingestão energética.
Por isso, é mais importante observar:
quantidade + frequência + padrão alimentar + contexto individual.
Glúten e leite são inflamatórios?
Não para todas as pessoas.
Pessoas com doença celíaca, alergias alimentares, intolerâncias ou determinadas condições clínicas podem precisar de estratégias específicas.
Para pessoas que não possuem essas condições, não é adequado afirmar que retirar glúten ou laticínios automaticamente "desinflama" o organismo.
Restrições alimentares devem ter uma justificativa individualizada.
Isso é especialmente importante para atletas, porque retirar grupos alimentares sem necessidade pode dificultar o atendimento das necessidades energéticas e nutricionais.
7 atitudes para favorecer uma alimentação mais saudável
Se o objetivo é melhorar a alimentação, não é necessário começar eliminando dezenas de alimentos.
Comece pelo básico:
1. Aumente o consumo de vegetais
Inclua frutas, verduras e legumes diariamente.
2. Aumente a ingestão de fibras
Feijão, aveia, frutas, legumes, sementes e cereais integrais são boas opções.
3. Reduza o excesso de ultraprocessados
O objetivo não precisa ser perfeição. O mais importante é melhorar o padrão habitual.
4. Priorize fontes de gorduras insaturadas
Azeite, castanhas, sementes e peixes são exemplos.
5. Garanta proteína suficiente
A necessidade deve ser individualizada, especialmente em praticantes de musculação e atletas.
6. Priorize o sono
Dormir bem também faz parte da estratégia nutricional e esportiva.
7. Treine e recupere
O treino é apenas uma parte do processo. Alimentação, sono e descanso fazem parte da adaptação.
Afinal, o que significa "desinflamar"?
Talvez seja melhor substituir a ideia de "desinflamar o corpo" por uma abordagem mais científica:
reduzir fatores de risco e construir hábitos que favoreçam a saúde metabólica ao longo do tempo.
Isso envolve:
alimentação equilibrada;
atividade física;
sono adequado;
recuperação;
controle do estresse;
composição corporal saudável;
acompanhamento médico quando necessário.Não existe suco, chá, alimento ou suplemento capaz de substituir esse conjunto.
Referências científicas
1. Reyneke GL, Lambert K, Beck EJ. Dietary Patterns Associated With Anti-inflammatory Effects: An Umbrella Review of Systematic Reviews and Meta-analyses. Nutrition Reviews. 2026;84(6):1167-1192. PMID: 40657695. (PubMed)
2. Maki KA, Sack MN, Hall KD. Ultra-processed foods: increasing the risk of inflammation and immune dysregulation? Nature Reviews Immunology. 2024;24(7):453-454. PMID: 38831164. (PubMed)
3. Pourrajab B, Fotros D, Asghari P, Shidfar F. Effect of the Mediterranean Diet Supplemented With Olive Oil Versus the Low-Fat Diet on Serum Inflammatory and Endothelial Indexes Among Adults: A Systematic Review and Meta-analysis of Clinical Controlled Trials. Nutrition Reviews. 2025;83(7):e1421-e1440. PMID: 39530776. (PubMed)
4. Gallant TL, et al. Low Energy Availability and Relative Energy Deficiency in Sport: A Systematic Review and Meta-analysis. Sports Medicine. 2025;55(2):325-339. PMID: 39485653. (PubMed)
5. The association of dietary inflammation index and health-related outcomes: An umbrella review of systematic reviews. Clinical Nutrition. 2026. PMID: 42435895. A revisão encontrou associações entre maior carga inflamatória da dieta e diversos desfechos de saúde, mas também destacou limitações na qualidade e certeza das evidências. (PubMed)
Etagiárias: Inez & Sara