A inflamação não é uma doença; ela é um dos principais mecanismos que o organismo possui para manter a homeostase (equilibrio de funcionamento). O problema não é a inflamação em si, mas quando ela é insuficiente, exagerada ou nunca se desliga.
Podemos pensar no corpo como uma cidade.
- O sistema imunológico é a polícia, os bombeiros e a equipe de manutenção.
- A inflamação é a resposta de emergência.
- A homeostase é a cidade funcionando normalmente.
- A doença acontece quando a resposta é inadequada ou quando a cidade precisa viver em estado permanente de emergência.
O que é a inflamação fisiologicamente?
Inflamação é uma resposta coordenada do sistema imunológico, do sistema vascular, do sistema nervoso e do sistema endócrino diante de uma ameaça.
Essa ameaça pode ser:
- vírus
- bactérias
- fungos
- trauma
- exercício intenso
- cirurgia
- queimadura
- toxinas
- excesso de gordura visceral
- morte celular
- até estresse psicológico prolongado.
O objetivo é sempre o mesmo:
- detectar o problema
- conter o dano
- eliminar a causa
- reparar o tecido
- voltar ao equilíbrio.
Ou seja, a inflamação existe para restaurar a homeostase.
Como ela começa?
Imagine um corte na pele.
As células lesionadas liberam moléculas de perigo (DAMPs).
Essas moléculas avisam:
"Tem tecido machucado aqui."
Os macrófagos e outras células de defesa reconhecem esse sinal.
Começam então a produzir mediadores inflamatórios:
- IL-1
- IL-6
- TNF-alfa
- prostaglandinas
- histamina
- quimiocinas
Essas substâncias fazem os vasos sanguíneos:
- dilatarem
- ficarem mais permeáveis
- recrutarem leucócitos
Daí surgem os sinais clássicos:
- calor
- vermelhidão
- dor
- edema
- perda temporária da função.
Esses sinais não são a doença.
São a consequência da tentativa do organismo de reparar o tecido.
O lado bom da inflamação
Sem inflamação nós morreríamos rapidamente.
Ela:
- combate infecções
- elimina células defeituosas
- remove tecido morto
- inicia cicatrização
- ajuda na regeneração muscular
- combate tumores em muitos casos.
Até o ganho de massa muscular depende de um pequeno processo inflamatório após o treino.
O exercício gera microlesões.
Essas microlesões provocam inflamação controlada.
Depois ocorre:
- regeneração
- hipertrofia
- adaptação
Sem essa resposta, praticamente não haveria evolução muscular.
O lado ruim
Agora imagine que o "botão desligar" nunca funciona.
A inflamação deixa de ser um mecanismo de defesa.
Ela passa a atacar tecidos saudáveis.
Isso gera:
- fibrose
- resistência à insulina
- desgaste articular
- lesão vascular
- envelhecimento acelerado
- doenças autoimunes
- maior risco cardiovascular.
É a chamada inflamação crônica de baixo grau.
Ela é silenciosa.
Às vezes a pessoa sente apenas:
- fadiga
- dificuldade para emagrecer
- dores difusas
- recuperação lenta
- pior desempenho físico.
Inflamação aguda × crônica
Aguda
Dura horas ou poucos dias.
Tem começo e fim.
Exemplo:
- pneumonia
- gripe
- cirurgia
- corte
- treino intenso.
O organismo resolve o problema e volta ao normal.
Crônica
Pode durar anos.
O organismo nunca consegue eliminar completamente o estímulo.
Exemplos:
- obesidade visceral
- diabetes tipo 2
- aterosclerose
- artrite reumatoide
- doença inflamatória intestinal
- adenomiose, endometriose
- algumas doenças hepáticas.
O corpo continua produzindo citocinas inflamatórias continuamente.
Diabetes
O diabetes tipo 2 é um ótimo exemplo.
Inicialmente:
- excesso de gordura visceral
- excesso calórico
- resistência à insulina
As células de gordura produzem diversas citocinas inflamatórias.
O pâncreas responde produzindo mais insulina.
Por algum tempo a glicose permanece normal.
É uma fase compensatória.
Depois:
- resistência aumenta
- o pâncreas se desgasta
- glicemia sobe
- instala-se o diabetes.
Perceba:
A doença não aparece de um dia para o outro.
Existe uma longa fase em que o organismo luta para manter a homeostase.
Adenomiose e miomas
São condições diferentes.
Adenomiose
O tecido semelhante ao endométrio invade o músculo uterino.
Isso gera:
- inflamação local
- dor
- aumento de prostaglandinas
- sangramento intenso
- alterações na contração uterina.
Miomas
São tumores benignos do músculo do útero.
Não são necessariamente inflamatórios.
Mas podem provocar:
- alterações vasculares
- sangramento
- anemia
- resposta inflamatória secundária em alguns casos.
Fígado
O fígado é um dos grandes reguladores da inflamação.
Ele produz:
- PCR (proteína C reativa)
- complemento
- proteínas de coagulação
- albumina
- hepcidina.
Quando existe inflamação sistêmica, o fígado muda completamente seu metabolismo.
Ferritina
A ferritina é muito interessante porque representa duas coisas:
Estoque de ferro
Baixa ferritina geralmente sugere redução das reservas de ferro.
Pode ocorrer por:
- sangramento
- deficiência de ingestão
- menor absorção
- maior demanda.
Consequências podem incluir:
- fadiga
- menor desempenho físico
- pior transporte de oxigênio quando evolui para deficiência de ferro importante.
Marcador inflamatório
Ferritina alta nem sempre significa excesso de ferro.
Pode aumentar em:
- infecções
- obesidade
- síndrome metabólica
- doenças hepáticas
- inflamação crônica
- algumas doenças autoimunes.
Na inflamação, o organismo aumenta a produção de hepcidina, que reduz a disponibilidade de ferro circulante. Isso ajuda a limitar o acesso de alguns microrganismos ao ferro, mas também pode contribuir para a chamada anemia da inflamação.
PCR (Proteína C Reativa)
A PCR é produzida pelo fígado em resposta principalmente à IL-6.
Ela sobe rapidamente quando existe inflamação.
Valores elevados podem ocorrer em:
- infecção
- trauma
- cirurgia
- doenças autoimunes
- obesidade
- doenças cardiovasculares.
Ela é um marcador da resposta inflamatória, mas não identifica a causa por si só.
CPK (Creatina Quinase)
A CPK é diferente.
Ela não mede inflamação diretamente.
Ela mede lesão celular, principalmente muscular.
Pode subir por:
- musculação intensa
- corrida
- trauma
- rabdomiólise
- algumas doenças musculares
- infarto (dependendo da fração e do contexto).
Um atleta pode apresentar CPK bastante elevada após um treino intenso sem que isso represente doença. A interpretação depende dos sintomas, do tipo de exercício e da evolução dos valores.
Quando a doença está "querendo aparecer"
Antes do diagnóstico, o organismo costuma compensar.
Exemplo:
Resistência à insulina:
Produz mais insulina.
Hipertensão:
Ajusta diversos mecanismos hormonais e renais para manter a perfusão.
Doença hepática:
O fígado pode manter muitas funções mesmo com perda significativa de tecido funcional.
Esse período é chamado de fase compensada.
Ainda existe homeostase.
Mas ela está sendo alcançada às custas de um enorme esforço fisiológico.
(ai que começa o corpo ficar inchado, não perde peso, a resposta metabolica não é a mesma)
Quando a doença crônica já está instalada
Depois de anos de compensação:
- aparecem sintomas
- ocorre remodelamento dos tecidos
- desenvolve-se fibrose em alguns órgãos
- surgem alterações permanentes.
O corpo ainda busca homeostase, mas agora em um "novo equilíbrio", muitas vezes menos eficiente.
O atleta de alta performance
Curiosamente, um atleta também vive em ciclos de inflamação.
Após um treino intenso:
- sobe IL-6 (com efeitos que dependem do contexto)
- aumenta CPK
- ocorre estresse oxidativo transitório
- há microlesões musculares.
Mas, com recuperação adequada (sono, nutrição, descanso e treinamento bem planejado), essa inflamação é seguida por resolução e adaptação, levando a mais força, capacidade aeróbica e resistência.
Já o excesso de treino sem recuperação (overreaching ou overtraining) pode manter uma inflamação persistente, piorar o desempenho e aumentar o risco de lesões.
A ideia central
A saúde não significa ausência completa de inflamação.
Significa a capacidade do organismo de:
- reconhecer rapidamente uma ameaça;
- gerar uma resposta inflamatória adequada;
- eliminar a causa do problema;
- reparar os tecidos;
- desligar a resposta inflamatória no momento certo;
- retornar à homeostase.
Quando esse ciclo funciona bem, a inflamação é uma aliada. Quando o estímulo persiste ou os mecanismos de resolução falham, ela pode contribuir para doenças crônicas.
o inchaço acontece durante a resposta inflamatória, e alguns mecanismos que ajudam a resolver essa inflamação podem fazer o organismo demorar um pouco para eliminar o líquido acumulado. Vamos entender isso pela fisiologia.
O que acontece durante a inflamação?
Imagine que você torceu o tornozelo ou fez um treino muito intenso.
O organismo entende que houve uma lesão e envia um "alerta". São liberadas substâncias como histamina, prostaglandinas e diversas citocinas inflamatórias.
Essas substâncias provocam:
- dilatação dos vasos sanguíneos;
- aumento da permeabilidade dos capilares;
- saída de plasma e proteínas para o tecido;
- chegada de células do sistema imunológico.
Esse líquido que sai dos vasos é o edema, ou seja, o inchaço.
O objetivo é levar oxigênio, nutrientes e células de defesa até a região lesionada.
Por que o peso pode aumentar?
Existem vários mecanismos.
1. Retenção de água
Durante uma inflamação importante, o organismo ativa sistemas hormonais para preservar a circulação, como:
- aldosterona;
- hormônio antidiurético (ADH);
- sistema renina-angiotensina.
Esses hormônios fazem os rins reterem mais sódio e água.
Resultado:
- aumento temporário do peso;
- sensação de "corpo pesado";
- inchaço.
Isso pode acontecer após uma cirurgia, uma infecção ou até depois de um treino muito intenso.
2. Glicogênio
Depois do exercício, os músculos repõem seus estoques de glicogênio.
Cada grama de glicogênio armazenado retém aproximadamente 3 a 4 gramas de água.
Por isso, uma pessoa pode ganhar 1 a 3 kg em poucos dias após voltar a treinar ou aumentar o consumo de carboidratos, sem ter ganhado gordura.
3. Reparo tecidual
Durante a cicatrização, o organismo produz:
- colágeno;
- novas proteínas;
- novos vasos sanguíneos.
Esses processos exigem maior fluxo de líquidos e nutrientes para o tecido, o que também pode contribuir para um aumento temporário de volume.
E quando a inflamação começa a diminuir?
Quando a causa da lesão é resolvida, entram em ação mecanismos de resolução da inflamação.
Macrófagos passam a remover células mortas e resíduos, e o sistema linfático começa a drenar o excesso de líquido.
Gradualmente:
- a permeabilidade dos vasos diminui;
- o edema é reabsorvido;
- os rins eliminam o excesso de água;
- o peso tende a voltar ao normal.
Por que algumas pessoas parecem "desinchar" ao usar um anti-inflamatório?
Isso depende do contexto.
Se o medicamento reduz a inflamação, há menor liberação de substâncias que aumentam a permeabilidade dos vasos, e o edema pode diminuir.
E nas doenças crônicas?
Em doenças como obesidade, diabetes tipo 2, doença hepática e algumas doenças autoimunes, existe uma inflamação persistente de baixo grau.
Essa inflamação pode alterar:
- o funcionamento dos vasos sanguíneos;
- a função dos rins;
- o equilíbrio hormonal;
- a drenagem linfática.
O resultado pode ser uma maior tendência à retenção de líquidos, embora nem todo ganho de peso nessas condições seja devido à água.
O atleta também pode "pesar mais"?
Sim.
Após um treino muito intenso é comum ocorrer:
- microlesões musculares;
- resposta inflamatória controlada;
- aumento da entrada de água nas fibras musculares;
- reposição de glicogênio.
Por isso, um atleta pode acordar 1 a 2 kg mais pesado no dia seguinte a um treino muito pesado, principalmente de pernas, e isso geralmente reflete água e glicogênio, não gordura.
A ideia central
O "inchaço" é uma estratégia fisiológica. O organismo usa água como meio de transporte para células de defesa, nutrientes e proteínas que participam da reparação do tecido. Quando a inflamação se resolve, o excesso de líquido costuma ser drenado pelo sistema linfático e eliminado pelos rins, permitindo o retorno à homeostase. Em algumas situações, porém, doenças ou medicamentos podem prolongar a retenção de líquidos.
Essa é uma das razões pelas quais o peso corporal pode variar alguns quilos ao longo de poucos dias sem que isso represente ganho ou perda de gordura corporal.
Nutricionista
Janete Neves
Referencias:
Robbins & Cotran – Patologia: Bases Patológicas das Doenças
Guyton & Hall – Tratado de Fisiologia Médica
Janeway's Immunobiology
Inflammation 2010: New Adventures of an Old Flame
Sleisenger and Fordtran's Gastrointestinal and Liver Disease
