sábado, 29 de agosto de 2026

 






Melissa e cortisol: o que a ciência mostra?

O cortisol é um hormônio essencial para a adaptação ao estresse. Ele apresenta um ritmo circadiano: normalmente é mais elevado pela manhã e diminui ao longo do dia. Estresse psicológico persistente, privação de sono e alterações do ritmo circadiano podem modificar essa dinâmica.

A Melissa officinalis contém diversos compostos bioativos, especialmente:

  • ácido rosmarínico;
  • flavonoides;
  • polifenóis;
  • triterpenos;

óleos essenciais, incluindo citral e citronelal.

Um dos mecanismos mais estudados é a interação com o sistema GABA érgico. O GABA é o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central e está relacionado à redução da excitabilidade neuronal, relaxamento e controle da resposta ao estresse. Alguns constituintes da melissa parecem inibir a degradação do GABA, contribuindo para um efeito ansiolítico e calmante. (Springer Nature Link)

Melissa → estresse → eixo HPA → cortisol

Uma forma interessante de compreender seu possível efeito é:

Estresse crônico → ativação do eixo HPA → aumento/alteração da dinâmica do cortisol → alterações do sono e ansiedade

A melissa pode atuar principalmente reduzindo a resposta subjetiva ao estresse e favorecendo relaxamento e sono, o que potencialmente repercute sobre o eixo HPA.

Em um estudo duplo-cego, randomizado e controlado por placebo, doses de 300 e 600 mg de extrato padronizado de Melissa officinalis foram avaliadas em adultos saudáveis submetidos a uma situação experimental de estresse. A dose de 600 mg melhorou significativamente medidas de calma e humor negativo relacionadas ao estresse. (PubMed)

Outro estudo randomizado avaliou bebidas contendo 0,3 ou 0,6 g de melissa e observou que o aumento de cortisol salivar ocorrido após o estressor no grupo placebo não foi observado nos grupos que receberam melissa. Houve interação significativa entre tempo e tratamento para o cortisol salivar. (PubMed Central (PMC))

Evidência mais recente: cortisol salivar

Um estudo publicado em 2026 trouxe um dado particularmente interessante.

Uma análise secundária avaliou 12 adultos que receberam 400 mg/dia de um extrato de Melissa officinalis formulado em fosfolipídios durante três semanas. Os pesquisadores observaram uma redução progressiva do cortisol salivar ao longo do período de suplementação, juntamente com associações favoráveis com sono, estresse e bem-estar psicológico. (PubMed)

Esse resultado é promissor porque fornece uma evidência mais direta de possível influência sobre o cortisol. Entretanto, trata-se de uma análise secundária com amostra muito pequena (n=12). Portanto, ainda não podemos concluir que a melissa seja um tratamento estabelecido para “cortisol alto”.

O papel do sono

Aqui talvez esteja uma das aplicações mais interessantes da melissa.

O estresse e a privação de sono podem alimentar um ciclo:

estresse → piora do sono → alteração da regulação do eixo HPA → maior vulnerabilidade ao estresse → piora do sono.

A melissa pode atuar principalmente quebrando esse ciclo pela melhora de relaxamento, ansiedade e qualidade do sono.

Em um ensaio clínico com 100 adultos apresentando estresse, ansiedade, alterações de humor ou sono ruim, 400 mg/dia de um extrato aquoso de Melissa officinalis por três semanas esteve associado a melhora significativa de estresse, ansiedade, humor, bem-estar e qualidade do sono. (PubMed Central (PMC))

A própria European Medicines Agency (EMA) reconhece o uso tradicional da folha de melissa para sintomas leves de estresse e auxílio ao sono, embora ressalte que as evidências clínicas ainda não são suficientes para estabelecer eficácia com o mesmo grau de certeza de medicamentos convencionais. (European Medicines Agency (EMA))

Portanto, como eu explicaria isso na fitoterapia?

Eu evitaria a frase:

“A melissa diminui o cortisol.”

E utilizaria uma formulação cientificamente mais adequada:

“A Melissa officinalis apresenta potencial adaptativo sobre a resposta ao estresse, podendo favorecer a modulação da atividade do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal e da dinâmica do cortisol, especialmente por seus efeitos ansiolíticos, relaxantes e promotores do sono.”

Essa formulação é mais segura porque não transforma uma evidência preliminar em uma promessa terapêutica.

Segurança e cuidados

A melissa é geralmente bem tolerada nas doses estudadas, mas isso não significa que seja isenta de cuidados. A EMA recomenda seu uso tradicional para adultos e adolescentes acima de 12 anos e orienta avaliação profissional quando os sintomas persistem. (European Medicines Agency (EMA))

Um ponto importante: segurança durante gravidez e lactação não está estabelecida, e a monografia da EMA não recomenda seu uso nessas situações por falta de dados suficientes. (European Medicines Agency (EMA))

Também é importante diferenciar chá de melissa, pó da planta e extratos padronizados. Não podemos simplesmente extrapolar a dose utilizada em um estudo com extrato padronizado para uma xícara de chá, porque concentração e composição dos compostos ativos podem ser muito diferentes.

Em resumo

Aspecto                                                             Evidência

Redução do estresse                                                   Promissora

Ansiedade leve                                                           Promissora

Qualidade do sono                                                     Promissora

Modulação do cortisol                                             Evidência inicial/promissora

Modulação do eixo HPA                                         Possível, mas ainda não estabelecida

Tratamento de hipercortisolismo                           Não comprovado

Substituição de tratamento médico                          Não


Conclusão

Como abordagem fitoterápica: a Melissa officinalis é uma planta interessante para estratégias voltadas ao estresse, relaxamento e sono, e existem evidências humanas indicando que seus efeitos podem estar relacionados à modulação da resposta do eixo HPA e do cortisol. Porém, a ciência ainda não permite classificá-la como um “regulador de cortisol” no sentido de corrigir qualquer alteração hormonal.

Referências científicas 

Scholey A, et al. Anti-Stress Effects of Lemon Balm-Containing Foods. Nutrients. 2014;6(11):4805–4821. (PubMed Central (PMC))

Kennedy DO, et al. Attenuation of laboratory-induced stress in humans after acute administration of Melissa officinalis. Psychosomatic Medicine. 2004. (PubMed)

Cases J, et al. Pilot trial of Melissa officinalis L. leaf extract in the treatment of volunteers suffering from mild-to-moderate anxiety disorders and sleep disturbances. Mediterranean Journal of Nutrition and Metabolism. 2011. (Springer Nature Link)

The effects of Melissa officinalis supplementation on depression, anxiety, stress, and sleep disorder in patients with chronic stable angina. Clinical Nutrition ESPEN. 2018;26:47–52. (ScienceDirect)

Mazzola G, et al. Salivary cortisol dynamics and their relationship with sleep and mental well-being in adults receiving a phospholipid-based Melissa officinalis supplement. Food & Nutrition Research. 2026;70. (Food and Nutrition Research)

European Medicines Agency. Melissa officinalis L., folium – European Union herbal monograph. (European Medicines Agency (EMA))


Inez & Sara 




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