Você já reparou que algumas pessoas conseguem tomar café depois do jantar e dormir tranquilamente, enquanto outras tomam uma xícara no fim da tarde e já sabem que terão uma noite difícil?
Essa diferença pode ter relação com a genética.
A cafeína, presente principalmente no café, chá, energéticos e alguns suplementos, atua no nosso cérebro bloqueando a ação da adenosina, uma substância relacionada à sensação de cansaço e sono. Por isso, depois de tomar café, ficamos mais alertas e menos sonolentos.
Mas o efeito da cafeína não é igual para todo mundo.
Onde entra a genética?
Nosso organismo precisa metabolizar a cafeína, e uma das principais enzimas envolvidas nesse processo é produzida a partir do gene CYP1A2. Existem variações genéticas que podem influenciar a velocidade com que a cafeína é metabolizada.
Outro gene estudado é o ADORA2A, relacionado aos receptores de adenosina no cérebro. Algumas variações nesse gene podem estar associadas a diferenças na sensibilidade à cafeína, inclusive em relação ao sono e à ansiedade.
Isso ajuda a explicar por que duas pessoas podem consumir a mesma quantidade de café e apresentar respostas diferentes.
Mas atenção: não é apenas a genética que determina essa resposta.
Quantidade de café, horário do consumo, frequência, qualidade do sono, uso de alguns medicamentos e outros hábitos também podem influenciar a forma como nosso corpo reage à cafeína.
Então posso tomar café à noite?
Depende.
Mesmo pessoas que não percebem efeitos imediatos podem ter alterações no sono. Uma revisão sistemática com 24 estudos mostrou que a cafeína pode diminuir o tempo total de sono e aumentar o tempo necessário para adormecer, principalmente quando consumida próximo ao horário de dormir.
Por isso, mais importante do que perguntar “qual é o melhor horário para tomar café?”, pode ser observar:
“Como o meu corpo responde ao café?”
Se você percebe que uma xícara no final da tarde prejudica seu sono, antecipar o horário ou reduzir o consumo pode ser uma estratégia simples.
E o que isso ensina para a Nutrição?
A genética mostra que não somos todos iguais. Nossos genes podem influenciar algumas respostas aos alimentos e nutrientes, mas isso não significa que nosso DNA determine sozinho o que devemos comer ou beber.
A ciência da Nutrição está justamente tentando entender melhor essas diferenças entre as pessoas.
Por enquanto, uma coisa já sabemos: aquele amigo que toma café às 22h e dorme tranquilamente pode realmente ter uma resposta diferente da sua e a genética pode ser parte da explicação.
Post elaborado por Claudia Cryslla - Graduanda de Nutrição
Referências
KAPELLOU, A. et al. Genetics of caffeine and brain-related outcomes: a systematic review of observational studies and randomized trials. Nutrition Reviews, 2023.
MOHAMED, A. et al. Genetic susceptibility to caffeine intake and metabolism: a systematic review. 2024.
GARDINER, C. et al. The effect of caffeine on subsequent sleep: a systematic review and meta-analysis. Sleep Medicine Reviews, 2023.
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