“Essa comida está sem gosto.”
Para algumas pessoas idosas, essa frase pode significar muito mais do que simplesmente não gostar da preparação. O envelhecimento pode alterar a percepção dos sabores e tornar a experiência de comer diferente.
Com o passar dos anos, podem ocorrer mudanças nas estruturas responsáveis pela percepção gustativa, além de alterações na saliva, no olfato e na saúde bucal. Uma revisão sistemática publicada em 2024 mostrou que pessoas idosas precisam, em geral, de concentrações maiores de substâncias para identificar os sabores quando comparadas a adultos mais jovens.
E o que isso tem a ver com Nutrição?
Imagine preparar a comida preferida de uma pessoa e, mesmo assim, ela dizer que “não tem gosto”.
Quando os alimentos ficam menos atrativos, pode ocorrer redução do prazer em comer, do apetite e da quantidade ou variedade de alimentos consumidos. Uma revisão recente encontrou associação entre alterações gustativas e menor ingestão alimentar, perda de peso não intencional e maior risco de desnutrição em pessoas idosas.
Mas atenção: nem toda alteração no paladar é simplesmente consequência da idade.
Medicamentos, doenças, alterações na boca, redução do olfato e até problemas de mastigação podem interferir na percepção dos alimentos. Por isso, investigar a causa é importante antes de simplesmente tentar “compensar” colocando mais sal ou açúcar na comida.
Como deixar a comida mais atrativa?
Uma alternativa é explorar aromas, ervas e temperos naturais, utilizando diferentes combinações de alho, cebola, ervas frescas, especiarias, limão e outros ingredientes que aumentem a complexidade sensorial da preparação.
Também é importante considerar cor, temperatura e textura. Afinal, comer não envolve apenas a língua: visão, olfato, tato e até a memória participam da experiência alimentar.
E existe outro ponto fundamental: a alimentação do idoso precisa continuar sendo nutritiva, segura e prazerosa.
Comer também é uma experiência
A alimentação na terceira idade não deve ser vista apenas como uma forma de fornecer nutrientes.
Uma refeição também pode representar prazer, autonomia, memória, cultura e convivência.
Por isso, quando uma pessoa idosa começa a dizer que “a comida não tem mais gosto”, talvez a pergunta não deva ser apenas:
“O que podemos colocar a mais na comida?”
Mas também:
“Por que ela deixou de sentir o sabor?”
Entender essa mudança é um passo importante para cuidar da alimentação, da qualidade de vida e do estado nutricional durante o envelhecimento.
Post elaborado por Claudia Cryslla - Graduanda de Nutrição
Referências científicas
ALVES, L. S. M. et al. Changes in taste perception in elderly population and its potential impact on oral health: a systematic review with meta-analysis. Frontiers in Oral Health, v. 5, 2024, 1517913. DOI: 10.3389/froh.2024.1517913.
Does presbygeusia really exist? An updated narrative review. Aging Clinical and Experimental Research, 2024. DOI: 10.1007/s40520-024-02739-1.
Association Between Taste Disorders and Malnutrition in Older Adults: A Scoping Review. The Gerontologist, 2025/2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário