Quando pensamos em desempenho esportivo, é comum lembrar de músculos, treino, descanso, proteína e carboidratos. Mas existe outro “participante” que pode estar envolvido nessa história: o intestino.
Dentro dele vivem trilhões de microrganismos que formam a chamada microbiota intestinal. Eles participam da digestão, produzem metabólitos e interagem com o sistema imunológico e com o funcionamento do organismo. Por isso, pesquisadores têm investigado se essa comunidade também pode influenciar a saúde e o desempenho de quem pratica esportes.
O que o intestino tem a ver com o exercício?
A relação parece funcionar nos dois sentidos: o exercício pode modificar o ambiente intestinal, enquanto a alimentação e a microbiota podem influenciar algumas respostas ao exercício.
Entre os mecanismos estudados estão a produção de metabólitos pelas bactérias intestinais, a integridade da barreira intestinal, a resposta imunológica e o aproveitamento de nutrientes. Um dos grupos mais estudados são os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), produzidos pela fermentação de componentes da alimentação, especialmente fibras.
Isso não significa que “quanto mais bactérias, melhor” ou que exista uma bactéria específica capaz de transformar alguém em atleta. A composição da microbiota é complexa e varia de acordo com alimentação, exercício, ambiente e características individuais. Inclusive, ainda não existe um padrão único que defina a microbiota ideal de um atleta.
E a alimentação entra onde?
Aqui a nutrição esportiva encontra a microbiota.
Atletas podem ter necessidades elevadas de carboidratos e proteínas e, dependendo da rotina, acabar consumindo uma alimentação com pouca variedade de alimentos vegetais ou pouca fibra. Estratégias de restrição alimentar também podem modificar o ambiente intestinal. Por outro lado, uma alimentação variada, com fontes adequadas de fibras e diferentes alimentos de origem vegetal, fornece substratos para diferentes microrganismos.
Mas existe um detalhe importante: mais fibra nem sempre significa melhor desempenho imediatamente.
Antes de uma competição, por exemplo, algumas pessoas podem apresentar desconforto gastrointestinal com determinados alimentos ricos em fibras ou carboidratos fermentáveis. Por isso, a estratégia precisa considerar o tipo de exercício, o horário, a tolerância individual e o momento da alimentação.
E os probióticos?
É aqui que precisamos tomar cuidado com o marketing.
Probióticos, prebióticos e simbióticos vêm sendo estudados no esporte e apresentam resultados promissores em alguns contextos. Porém, os efeitos dependem da cepa, dose, duração do uso e características individuais. Ainda não existe um suplemento probiótico universalmente indicado para melhorar o desempenho esportivo.
Ou seja: cuidar do intestino faz sentido, mas isso não significa sair comprando qualquer probiótico com a promessa de “aumentar sua performance”.
Então, como “treinar” o intestino?
Talvez o primeiro passo seja menos mirabolante do que parece: alimentar bem o organismo como um todo.
Uma alimentação variada, adequada às necessidades energéticas do atleta e com diferentes fontes de fibras e alimentos vegetais pode contribuir para um ambiente intestinal mais favorável. Além disso, estratégias de alimentação e hidratação durante o exercício devem ser testadas durante os treinos, e não descobertas pela primeira vez no dia da competição.
A ciência sobre microbiota e esporte ainda está evoluindo. O intestino pode ser uma peça importante desse quebra-cabeça, mas ainda estamos descobrindo exatamente qual é o seu papel e como utilizá-lo de forma individualizada na nutrição esportiva.
Post elaborado por Claudia Cryslla - Graduanda de Nutrição
Referências
HUGHES, Riley L.; HOLSCHER, Hannah D. Fueling gut microbes: a review of the interaction between diet, exercise, and the gut microbiota in athletes. Advances in Nutrition, v. 12, n. 6, p. 2190–2215, 2021. DOI: 10.1093/advances/nmab077.
MANCIN, Laura et al. Standardization of gut microbiome analysis in sports. Cell Reports Medicine, v. 5, n. 10, 101759, 2024. DOI: 10.1016/j.xcrm.2024.101759.
The athlete gut microbiota: state of the art and practical guidance. 2024.
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