O guaraná é uma planta originária da Amazônia e muito conhecida no Brasil, tanto pelo uso tradicional quanto pela presença em refrigerantes, bebidas energéticas e suplementos alimentares.
Seu nome científico é Paullinia cupana, e suas sementes são ricas em cafeína, além de conterem outros compostos bioativos. Embora seja frequentemente associado ao aumento da disposição e da concentração, é importante entender quais efeitos são sustentados pelas evidências científicas e quais ainda precisam de mais estudos.
Quais são os principais compostos do guaraná?
Entre as substâncias encontradas nas sementes do guaraná, destacam-se:
Cafeína: principal composto estimulante, capaz de aumentar temporariamente o estado de alerta e reduzir a sonolência.
Teobromina e teofilina: substâncias da mesma família química da cafeína, com efeitos fisiológicos próprios.
Catequinas e outros polifenóis: compostos estudados por suas propriedades antioxidantes.
Taninos: substâncias vegetais que contribuem para o sabor adstringente e apresentam atividades biológicas estudadas em laboratório.
A composição varia de acordo com a origem da matéria-prima, o processamento e a concentração do extrato. Portanto, nem todo produto à base de guaraná apresenta a mesma quantidade dessas substâncias.
1. aumento de disposição
A cafeína presente no guaraná atua no sistema nervoso central, principalmente bloqueando os receptores de adenosina, uma substância envolvida na regulação do sono e da sensação de cansaço.
Por esse mecanismo, o consumo pode proporcionar:
Aumento temporário do estado de alerta.
Redução da sensação de sonolência.
Melhora de determinados aspectos da atenção.
Entretanto, esses efeitos dependem da quantidade ingerida e da sensibilidade individual. Também não significam que o guaraná seja capaz de corrigir a fadiga causada por privação de sono, anemia ou outras condições de saúde.
É importante diferenciar o efeito estimulante da cafeína de um aumento real e duradouro da energia física.
2. Memória e concentração
Esse é um dos benefícios mais divulgados do guaraná, mas as evidências científicas ainda são limitadas.
Uma revisão sistemática com metanálise, publicada em 2023, avaliou oito estudos controlados por placebo, envolvendo 328 participantes. Os resultados não demonstraram uma melhora geral estatisticamente significativa do desempenho cognitivo após o consumo agudo de guaraná. Algumas análises específicas encontraram respostas mais rápidas em determinadas tarefas, mas os resultados não permitem afirmar que o guaraná melhore a memória ou a concentração de maneira consistente [2].
Além disso, ainda não está completamente esclarecido se os efeitos observados em alguns estudos decorrem da cafeína, de outros compostos da planta ou da combinação entre eles.
Assim, o guaraná pode ter efeitos estimulantes, mas não deve ser apresentado como um recurso comprovado para melhorar a memória em todas as pessoas.
3. Ação antioxidante
As sementes do guaraná contêm catequinas, proantocianidinas e outros compostos fenólicos que são estudados por sua atividade antioxidante.
Essas substâncias podem atuar em processos químicos relacionados ao estresse oxidativo, especialmente em estudos laboratoriais. Contudo, demonstrar atividade antioxidante em laboratório não significa comprovar a prevenção de doenças em seres humanos.
Ainda são necessárias pesquisas clínicas de melhor qualidade para determinar quais benefícios podem ser atribuídos ao consumo habitual do guaraná, em quais quantidades e para quais grupos de pessoas.
Por isso, o guaraná não deve ser considerado um tratamento para doenças inflamatórias ou metabólicas.
4. Riscos por consumo excessivo
Como é uma fonte de cafeína, o guaraná pode provocar efeitos semelhantes aos de outras bebidas e produtos cafeinados quando consumido em excesso.
Entre os possíveis efeitos estão:
Insônia e dificuldade para dormir.
Ansiedade, agitação e tremores.
Palpitações e aumento da pressão arterial.
Náuseas e desconforto gastrointestinal.
O risco pode aumentar quando o guaraná é combinado com café, bebidas energéticas, pré-treinos ou outros suplementos estimulantes.
Pessoas com hipertensão, arritmias, ansiedade ou problemas de sono devem ter atenção especial. Quem utiliza medicamentos também deve conversar com um profissional de saúde antes de consumir suplementos concentrados de guaraná.
Durante a gestação e a amamentação, é importante avaliar a ingestão total de cafeína e evitar a automedicação com extratos ou suplementos.
Conclusão
O guaraná é uma planta amazônica rica em cafeína e outros compostos bioativos. Seu efeito mais bem estabelecido é o estímulo temporário associado à cafeína, que pode aumentar o estado de alerta e reduzir a sonolência.
Embora seus polifenóis apresentem propriedades antioxidantes em estudos experimentais, ainda faltam evidências clínicas consistentes para afirmar que o consumo de guaraná previne doenças ou melhora a memória de forma confiável.
Para consumir com mais segurança, é importante observar a quantidade de cafeína, evitar combinar diversas fontes estimulantes e considerar as necessidades individuais.
Referências
1. Schimpl FC, da Silva JF, Gonçalves JFC, Mazzafera P. Guarana: revisiting a highly caffeinated plant from the Amazon. Revista Brasileira de Farmacognosia. 2013;23(5): 866–873.
https://doi.org/10.1590/S0102-695X2013000500020
2. Effect of Guarana (Paullinia cupana) on Cognitive Performance: A Systematic Review and Meta-Analysis. 2023.
PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36678305/
3. Tfouni SAV, Camargo MCR, Vitorino SHP, Menegário TF, Toledo MCF. Contribuição do guaraná em pó (Paullinia cupana) como fonte de cafeína na dieta. Revista de Nutrição.
https://periodicos.puc-campinas.edu.br/nutricao/article/view/9654
4. Safety of Guarana Seed as a Dietary Ingredient: A Review. Journal of Agricultural and Food Chemistry. 2019.
https://doi.org/10.1021/acs.jafc.9b03781
5. European Food Safety Authority (EFSA). Caffeine. Informações sobre consumo e segurança.
https://www.efsa.europa.eu/en/topics/topic/caffeine
Elaborado por Paulo Henrique - Estagiário de Nutrição

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