segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019


Cálcio e Fósforo
Ocorrência no organismo
De todos os minerais, o cálcio é o mais abundante no organismo; corresponde a 1 ou 2% do peso corporal, e a cerca de 40% do total de minerais presentes no organismo; 99% do cálcio são encontrados em tecidos rijos, como ossos e dentes, e o percentual restante acha-se distribuído através do sangue, dos tecidos e de outros fluidos.
O fósforo acha-se funcional e estruturalmente ligado ao cálcio, razão porque é praxe considerar estes dois minerais em conjunto. O fósforo é o segundo mineral do corpo em nível de ocorrência, representando cerca de 1% do peso corporal; 75% do fósforo do organismo encontram-se em tecidos rijos.
Minerais do tecido ósseo
O osso é constituído de uma parte mole e flexível, a matriz orgânica, formada pelos osteoblastos (componentes celulares), por uma substância fundamental gelatinosa, rica em mucopolissacarídios, como o sulfato de condroitina, e por fibras de colágeno. Principalmente o cálcio e o fósforo, e também outras substâncias, em menor quantidade, como magnésio, sódio, carbonato, citrato, cloreto e fluoreto, depositam-se em uma estrutura que circunda a matriz, conferindo-lhe proteção e servindo de suporte.
O cálcio e o fósforo depositam-se na forma de pequenos cristais de hidroxiapatita. Estes cristais podem, conforme a requisição metabólica, dissolver-se ou reconstituir-se. Os ossos contêm uma fina rede vascular que permite a troca de substâncias com o líquido intersticial que embebe os cristais. À medida que o tecido ósseo amadurece, os cristais aumentam de tamanho.
"Turnover” (o “entra-e-sai”) de minerais no Osso
Os minerais do osso acham-se à disposição do metabolismo, especialmente a fração de cristais mais recentemente depositada, chamada fração intercambiável (ao contrário dos minerais presentes no esmalte e na dentina dos dentes, que não são facilmente mobilizados). Na eventualidade de o organismo necessitar de cálcio, o paratormônio (hormônio da glândula paratiróide) estimula a liberação de cálcio do osso para o sangue, a fim de que seja restabelecida a homeostasia deste mineral, que gira em torno de 10 mg de cálcio por 100 ml de soro.
O paratormônio também incita o aumento da reabsorção de cálcio nos rins e eleva a absorção deste mineral no intestino. Na situação oposta, isto é, quando a calcemia (concentração de cálcio no sangue) eleva-se acima do normal, outro hormônio, a calcitonina (secretada pela glândula tireóide), inibe a reabsorção de cálcio do osso.
Balanço negativo de minerais no osso
A porção intercambiável de cálcio no osso, como se pode entender do que acabamos de explicar, constitui uma importante reserva do mineral, requisitada em caso de carência dietética ou metabólica. Se o balanço de cálcio permanecer por muito tempo negativo (maior perda que reposição), a parte intercambiável pode exaurir-se, e ocorrer degradação da parte não-intercambiável, que constitui a substância óssea mais estável, e instalam-se, como conseqüência, doenças como raquitismo em crianças, osteomalácia em adultos e osteoporose em anciãos.
A carência dietética de vitamina D e cálcio são comumente associáveis a tais condições patológicas, mas há também outros fatores dietéticos, hormonais e metabólicos que contribuem para o quadro. Quando o fosfato de cálcio é removido do osso em proporções expressivas, o tecido remanescente perde sua rigidez normal, torna-se mais sujeito a fraturas, e finalmente converte-se numa estrutura flexível como a cartilagem.
Equilíbrio entre síntese e degradação óssea
A síntese e a degradação de tecido ósseo para a liberação de minerais, principalmente cálcio, devem ser mantidas em equilíbrio no adulto; na infância, devido ao crescimento, a síntese predomina sobre a degradação. Ambos os processos são controlados por elementos celulares presentes nos ossos: os osteclastos são responsáveis pela destruição dos componentes ósseos, e os osteoblastos pela deposição de minerais.
A mineralização e a desmineralização do osso constituem processos normais para a manutenção da homeostasia (equilíbrio de concentrações), desde que aconteçam em nível de camada de minerais intercambiáveis do osso, ali presentes com esta finalidade fisiológica. Cerca de 600 a 700 miligramas de cálcio entram no osso e o deixam cada a 24 horas, movimento que deve ser conservado em equilíbrio no adulto.
Funções extra ósseas do cálcio e do fósforo
Como vimos, o cálcio presente no sangue é mantido em equilíbrio através da deposição ou da degradação do cálcio ósseo. Apesar de os teores de fósforo e cálcio serem ínfimos em tecidos não ósseos (se comparados aos teores do tecido ósseo), eles desempenham papéis essenciais naqueles setores.
A. A coagulação do sangue requer cálcio. A tromboquinase necessita de cálcio para catalisar a reação de conversão de protrombina em trombina.
B. A estimulação nervosa em nível da célula muscular propicia a entrada de cálcio, a qual ativa os mecanismos bioquímicos responsáveis pela contração das fibras musculares conhecidas como actina e miosina, seguida da contração das células e do músculo, que se encurta e espessa. Destarte, o cálcio é considerado importante fator de contração e relaxamento muscular.
A liberação de acetilcolina, substância que media a passagem do impulso nervoso nas sinapses, em parte depende da ocorrência de íons cálcio no meio. A permeabilidade das membranas celulares também é influenciada pelo cálcio.
1. Várias enzimas são ativadas pelo cálcio, como a ATPase, a lipase e algumas enzimas proteolíticas.
2. O cálcio é necessário à absorção de vitaminas do complexo B no intestino.
3. Quanto ao fósforo, sabe-se que está presente em todas as células do corpo, constituindo, entre outras coisas, os ácidos nucléicos (DNA e RNA), que determinam o código genético.
ATP, ADP e AMP, moléculas captoras e liberadoras de energia em inúmeras reações metabólicas, contêm fósforo.
4. Os fosfatos participam do equilíbrio ácido-básico do sangue.
Absorção
 Cerca de 20 a 40% do cálcio ingerido com os alimentos e 50 a 70% do fósforo são absorvidos. Estes níveis de absorção podem diminuir ou aumentar conforme certas circunstâncias. Por exemplo, quando aumenta a necessidade de cálcio no organismo, são acionados mecanismos pelos quais é diminuída a perda fecal deste nutriente.
Quando a ingestão de cálcio através da alimentação é pequena, ocorre aumento da eficiência de utilização. O excesso de cálcio dietético, todavia, aumenta a perda fecal.
A absorção de cálcio e fósforo ocorre no intestino delgado, e é favorecida por diversos fatores:
1. Ingestão adequada de vitamina D.
2. pH: Adequada acidez do conteúdo digestivo no intestino delgado, conferida pelo ácido do estômago.
3. Presença moderada de gorduras, o que aumenta o tempo de trânsito e permite melhor absorção.
4. Lactose. A presença de lactose melhora o aproveitamento de cálcio, mas a razão ainda é discutida.
5. Equilíbrio de concentrações de cálcio e fósforo.

A absorção de cálcio e fósforo é desfavorecida por diversos fatores:
            A. Ácido oxálico: combina-se com o cálcio, formando oxalato de cálcio e prejudicando o seu aproveitamento. Está presente no tomate, na acelga e em outros vegetais.
B. Ácido fítico: presente em vários alimentos, principalmente na soja e nos cereais. Este ácido forma complexos (fitatos) inabsorvíveis.
C. Meio alcalino: nesta condição, o fosfato junta-se ao cálcio e, na forma de fosfato de cálcio insolúvel, ambos se perdem. Na falta de ácido do estômago (hipocloridria), pode haver, portanto, deficiência de cálcio pela via de absorção.
D. Outros fatores, como estresse, falta de exercícios, diarréia e excesso de gordura, podem afetar negativamente a absorção deste nutriente, além de diminuírem o aproveitamento de muitos outros nutrientes e produzirem desordens metabólicas.
Sinais e sintomas de carência
1. Em nível de sistema ósseo, a carência de cálcio provoca raquitismo em crianças, osteomalácia em adultos e osteoporose mais frequentemente em idosos. Estas condições estão também associadas à deficiência de vitamina D, que é responsável pela normalidade funcional de mecanismos que possibilitam o aproveitamento do cálcio (ler Vitamina D).
2. No sangue e nos tecidos não ósseos, a carência de cálcio dificulta a passagem de impulsos nervosos para os músculos e aumenta a irritabilidade das fibras nervosas, podendo acarretar tetania ou cãibra.
3. A carência de fósforo acarreta a diminuição da síntese de ATP e outros compostos contendo fosfato, e se manifesta através de disfunções neuromusculares, esqueléticas, hematológicas e renais.
4. A deficiência de fosfato pode ser precipitada por nutrição parenteral à base de glicose ou outros componentes, sem que haja o devido fornecimento de fosfato, pelo uso excessivo de antiácidos, por hiperparatireoidismo, alcoolismo, tratamento de acidose diabética e outras situações.
Hiperingestão
A hiperingestão de cálcio, principalmente se associada à ingestão exagerada de vitamina D, pode favorecer o desenvolvimento de focos de hipermineralização tanto nos ossos como em tecidos moles. Parece que as crianças estão mais sujeitas a este desequilíbrio nutricional, talvez devido à excessiva e mórbida preocupação dos pais em relação à nutrição, que os leva a administrar suplementos vitamínico-minerais aos filhos por conta própria.
Necessidades nutricionais
- Segundo o boletim informativo da Organização Mundial de Saúde, "em geral as crianças e os adultos na maioria dos países podem desenvolver-se normalmente e viver saudavelmente com ingestão diária de cálcio entre 300 e 1.000 miligramas, ou com ausência de distúrbios nutricionais e ingestão adequada de vitamina D, mesmo com um fornecimento dietético algo mais alto ou mais baixo." Como em condição de menor ingestão de cálcio o organismo é capaz de aumentar seu aproveitamento, as recomendações quantitativas para este mineral sofrem certa flutuação.
- A Comissão de Especialistas em Necessidades de Cálcio da FAO/OMS recomenda de 400 a 500 mg/dia de cálcio para um adulto normal.
- As RDA recomendam 800 mg/dia, valor muito elevado se comparado à recomendação da FAO/OMS. A ingestão muito alta de proteína nos Estados Unidos (o que consideramos impróprio do ponto de vista nutricional) foi associada a desordens degenerativas, como o câncer, ocasionando desperdício urinário de cálcio. O próprio Food and Nutrition Board admite que "pessoas que consomem menos proteína que o habitualmente utilizado nos Estados Unidos manterão o equilí¬brio de cálcio mesmo com ingestão consideravelmente abaixo da recomendação".
- A FAO/OMS estabelece a quantidade de 1.000 a 1.200 mg/dia como adequada para as fases de gestação e lactação.
- O National Research Council aconselha a ingestão de 360 mg/dia de cálcio para crianças até os seis meses, e de 540 mg/dia dos seis meses até um ano de idade. O aleitamento materno supre satisfato¬riamente a necessidade de cálcio do recém-nascido.
Recomendam-se 800 mg/dia de cálcio entre 1 e 10 anos, e 1.200 mg/dia entre 11 e 18 anos.
- O Food and Nutrition Board recomenda para o fósforo níveis de ingestão iguais ao do cálcio em todas as faixas etárias, exceto para recém-nascidos, quando o fornecimento de fósforo deve ser um pouco menor do que o de cálcio. A proporção entre cálcio e fósforo sugerida até os 6 meses de vida é de 1,5 para 1. O leite materno, mais uma vez, se ajusta perfeitamente a tais requerimentos.
Fontes alimentares
É preciso considerar a presença de antagonistas do cálcio nos alimentos. Por exemplo, a soja é tida por alguns, como boa fonte de cálcio, o que não é realidade em vista do seu alto teor de ácido fítico, que diminui o aproveitamento do mineral.
O leite e muitos dos seus derivados são a melhor fonte dietética de cálcio.
Cominho, farinha de cenoura, farinha de macambira, coco-macaúba, melado de cana, rapadura e folhas verde-escuras, como couve, couve-chinesa, repolho crespo, dente-de-leão, mostarda, brócolis, folhas de nabo, salsa, algas marinhas, vinagreira, alfafa, bredo-verdadeiro e coentro, são exemplos de fontes vegetais de cálcio.
As folhas de ruibarbo, o espinafre, a acelga e as folhas de beterraba são exemplos de alimentos cujo cálcio não é bem aproveitado, em virtude do alto conteúdo de antagonistas do mineral, como o ácido oxálico.
Há poucas chances de ocorrer carência dietética de fósforo, haja vista que ele se acha bem distribuído nos alimentos naturais, destacando-se como boas fontes os cereais e os grãos, os laticínios, os ovos e as nozes, dentro da linha lacto-ovo-vegetariano-naturista de alimentação.
O fósforo acha-se presente na forma de ácido fítico em certos cereais e farinhas; este ácido, como foi colocado anteriormente, forma complexos inabsorvíveis com minerais como cálcio e ferro, diminuindo sua absorção. A fermentação de cereais, entretanto, como o uso de fermento biológico em pães, converte o fósforo do ácido fítico em ortofosfato, diminuindo seu efeito antiabsortivo.

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