A prática de exercícios e a adoção de uma dieta saudável desde a infância têm sido evidenciadas por inúmeros trabalhos como as principais estratégias para o combate à obesidade infantil. Encontram-se ainda relacionadas aos fatores modificáveis de risco: mudanças no estilo de vida como brincadeiras, tempo de televisão, computadores, insegurança para brincar na rua; e hábitos alimentares, por exemplo o apelo comercial dos produtos ricos em carboidratos simples, gordura e calorias e seu menor custo, revelam que, segundo a International Obesity Task Force (IOF), 22 milhões de crianças com menos de cinco anos têm sobrepeso.
A literatura a respeito da participação de crianças em atividade esportivas (pré-púberes e púberes) tem sugerido que o período máximo de treinamento físico deve compreender 15 a 18 horas semanais para evitar que o crescimento seja comprometido.
Um dos riscos possíveis associados à prática de exercícios físicos extenuantes relaciona-se à consequente produção de calor. Para o bom desempenho das funções corporais, é importante que a temperatura seja mantida, com possibilidade de pequenas variações em torno de 37ºC, permitindo uma faixa de variação muito limitada (±1°C). Fora dessa amplitude, podem ocorrer consequências graves, tais como desidratação, deficiência na termorregulação corporal e redução do desempenho físico(8). A reposição hídrica e de eletrólitos é importante na dieta de pessoas ativas em virtude da grande perda que pode ocorrer através do suor durante o exercício, particularmente em um ambiente quente e úmido.
Muitos estudos têm abordado os riscos e recomendações de reposição hídrica aplicada a indivíduos adultos fisicamente ativos, porém pouco é conhecido sobre os efeitos nocivos da desidratação e necessidades de reposição para crianças fisicamente ativas, mesmo levando-se em conta que os sistemas termorregulatórios das crianças são menos eficientes.
As crianças têm uma área maior de superfície corporal que os adultos, o que facilita a transferência de calor por convecção e por radiação e possivelmente as coloca em desvantagem quando expostas ao frio. Entretanto, a perda de calor por evaporação em crianças é menos eficiente.
As recomendações de consumo hídrico para crianças são fornecidas pelo Institute of Medicine(33) pelos valores de AI (Adequate Intake), estabelecidos com base em estimativas da ingestão assumidas como adequadas para um grupo de indivíduos, observadas ou determinadas experimentalmente (Tabela 1)(34). Porém, tais recomendações provavelmente não são aplicáveis a crianças fisicamente ativas, principalmente durante o exercício prolongado, pois há perda de quantidade considerável de eletrólitos e água pelo suor, e caso a atividade física seja prolongada (>1 hora) ou intensa e intermitente, sódio e carboidratos devem ser adicionados a uma solução preferencialmente flavorizada(23). Duas razões são destacadas para o estímulo à ingestão de líquidos durante atividade física por crianças: minimizar o efeito da desidratação e hipertermia e, deste modo, aumentar a efetividade e segurança do treinamento; e a importância de se testarem diferentes bebidas para a reposição para saber qual a mais eficaz para a reidratação de cada atleta.
Tabela 1 – Valores de AI (Adequate Intake)* para reposição hídrica, segundo o sexo.
| | AI (L/dia) |
| Masculino | |
| 1 a 3 anos | 1,3 |
| 4 a 8 anos | 1,7 |
| 9 a 13 anos | 2,4 |
| 14 a 18 anos | 3,3 |
| Feminino | |
| 1 a 3 anos | 1,3 |
| 4 a 8 anos | 1,7 |
| 9 a 13 anos | 2,1 |
| 14 a 18 anos | 2,3 |
*Representa a necessidade de água total para clima temperado. Todas as fontes de água podem contribuir para a necessidade total de água (chás, cafés, sucos, água e umidade dos alimentos). Fonte: IOM(33).
Considerando-se que as crianças são um grupo de risco para a desidratação, aquelas fisicamente ativas merecem uma atenção especial, pois, em relação aos adultos, possuem mecanismo de estímulo da sede menos eficiente, subestimando suas necessidades hídricas e acarretando maior desidratação voluntária. Diversos estudos com amostras de crianças e adolescentes demonstram que a reidratação é mais eficiente com a oferta de bebidas flavorizadas, atrativas (coloridas), geladas e com o acréscimo de carboidrato a 6%, além de eletrólitos, embora não haja consenso sobre a adequada formulação destas soluções. Conclui-se, finalmente, que a melhor recomendação para este grupo, perante a condição climática de nosso país, seja estabelecer um plano de hidratação que não permita um quadro de perda hídrica significativa, com monitoramento da variação de peso antes e após a sessão de exercício a fim de manter a performance durante a atividade e, principalmente, não colocar a criança em risco pelos efeitos induzidos pela hipertermia.
Postado por: Priscila Lumazini e Heleuza Silva
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