As leis da termodinâmica determinam que quando a ingestão de calorias provenientes dos alimentos é maior que o gasto energético teremos o armazenamento de energia – o acúmulo de gordura. Inversamente, se houver o déficit, ou seja, ingestão menor que o gasto energético, teremos a perda dos estoques corporais de energia e redução do peso. Mas o controle do peso corporal não é tão simples. Quando as pessoas seguem uma dieta para perda de peso, costumam não conseguir perder o peso previsto se considerarem apenas a redução de calorias ingeridas. Na verdade, o balanço energético é melhor explicado pelo uso de uma equação dinâmica na qual as mudanças em um dos fatores da equação “energia consumida/energia gasta” resulta em mudanças metabólicas e/ou comportamentais de compensação no lado oposto. Por exemplo, quando uma pessoa começa a seguir uma dieta com restrição calórica, a taxa do metabolismo costuma diminuir, de maneira que a perda de peso é menor que a esperada.
Há evidências crescentes de que a fisiologia humana é configurada de maneira que é mais eficiente para lidar com a minização de potenciais conseqüências negativas da baixa ingestão calórica (ex.: fome) que com as conseqüências negativas do excesso de calorias. Isso faz com que haja uma acentuada tendência para o ganho de peso quando as pessoas ingerem alimentos demais e fazem o mínimo de atividade física.
Os dois pilares de uma abordagem eficaz a longo prazo para a regulação do peso corporal são a dieta saudável e atividade física regular. Dietas radicais são raramente adequadas porque envolvem adaptações metabólicas (redução do gasto energético de repouso, níveis reduzidos de hormônios de saciedade e aumento dos hormônios relacionados a fome) que atuam como antagonistas para perda permanente de peso. A prática regular de exercícios ainda é o principal fator de previsão de manutenção da perda de peso a longo prazo.
Apesar de termos uma gama de recomendações estabelecidas por diversas organizações de saúde para melhorar a dieta e aumentar a atividade fisica, a prevalência da obesidade aumentou dramaticamente nos EUA nas duas últimas décadas. O aumento do peso nos EUA gerou uma indústria de perda de peso de bilhões de dólares, com a propaganda de livros sobre dieta, programas de exercício físico e suplementos que oferecem uma solução rápida para aumentar o metabolismo e derreter a gordura. Dada a confusão, falta de informação e busca da “pílula mágica”que caracteriza a indústria de perda de peso nos EUA, é particularmente importante que os profissionais de saúde reavaliem os princípios científicos da regulação do peso corporal.
Conceitos Básicos em Bioenergética
Uma breve revisão de princípios bioenergéticos nos fornecerá a base para a compreensão de muitos problemas no controle de perda de peso. Os seres humanos precisam de energia para realizar o trabalho biológico tais como a contração muscular, a biossíntese de glicogênio e proteína, transporte de íons e moléculas contra o gradiente de concentração, etc. A “moeda” primária de energia necessária para tal trabalho é encontrada nas ligações químicas da molécula de adenosina trifosfato (ATP). Essa energia é liberada pela quebra de ATP em adenosina difosfato (ADP) e fosfato inorgânico (Pi). A maioria do nosso requerimento diário de ATP é atendido pela sintetização de ATP a partir do ADP e de Pi na mitocôndria das células, sendo que a energia necessária para este processo é oferecida indiretamente pela oxidação de macronutrientes (carboidratos, gorduras e proteinas). A figura 1 mostra que quando uma molécula de glicose sofre a oxidação para se transformar em CO2 e H2O, temos a oferta de energia para a síntese de ATP. A energia liberada pela quebra do ATP é então usada para o trabalho biológico. Observe que apenas uma porção da energia liberada a partir da oxidação de glicose é conservada na molécula recém-sintetizada de ATP. Na realidade, mais que metade da energia presente dentro da molécula de glicose é perdida como calor, um fenômeno descrito pela segunda lei da termodinâmica, que dita que as reações químicas não são necessariamente eficientes. Se a proporção de energia obtida a partir da glicose conservada como ATP diminuísse e a produção de calor aumentasse, o processo seria menos eficiente do ponto de vista energético que o normal.
Calorimetria. A determinação de energia disponível nos alimentos é baseada na sua combustão em um calorímetro de bomba. A energia não é captada como ATP, mas sim convertida em calor; daí o uso da kilocaloria (uma unidade de energia calorimétrica) para quantificar a energia disponível nos alimentos. A correção dos dados da bomba calorimétrica para avaliar como o organismo consegue usar cada um dos macronutrientes resulta em valores de energia metabolizáveis iguais a 4 Kcal/g para carboidratos e proteínas e de 9 Kcal/g para gorduras. Bebidas alcoólicas (etanol) fornecem 7 Kcal/g.
Equação do Balanço Energético. A primeira lei da termodinâmica declara que a energia não é criada nem destruída, mas sim que se transforma de uma forma para outra. Como a energia ingerida e a gasta devem ser contabilizadas, essa lei serve como base para a equação do balanço energético. Colocado de maneira simples, o excesso da ingestão energética comparada ao gasto promoverá o armazenamento da energia corporal; por outro lado, o déficit da ingestão energética comparado ao gasto promoverá a perda dos estoques de energia do organismo. O número de fatores que regulam a ingestão e gasto de energia em seres humanos é grande e complexo. Com relação à ingestão, o hipotálamo integra os sinais relacionados ao trato gastrintestinal, os sinais com origem no metabolismo de macronutrientes (principalmente no fígado) e os sinais químicos do sistema nervoso central e do periférico que são anabólicos (estímulo da fome, ex., neuropeptídeo Y) ou catabólicos (supressão da fome; ex.: leptina) para determinar os fatores biológicos que estimulam ou não a ingestão de alimentos. Além disso, esses sinais “biológicos”são associados a fatores psicossociais (ex.: cultura), fatores comportamentais (ex.: ingestão de salgadinhos durante os comerciais da televisão) e fatores ambientais (ex.: tamanho das porções, qualidades sensoriais dos alimentos). O comportamento resultante não é o mero resultado do aumento ou redução do impulso biológico para comer, mas é derivado da complexa integração de muitos fatores internos e externos.
http://www.gssi.com.br/artigo/127/sse-48-balanco-energetico-e-regulacao-do-peso-corporal
Postado por: Daniela de Barba
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