Agora que o medicamento me ajudou a controlar a fome e eu já perdi X kg, como vamos transformar esse resultado em um estilo de vida que eu consiga manter?
Os medicamentos para emagrecimento, especialmente os que atuam nos receptores de GLP-1, mudaram a forma como muitas pessoas conseguem controlar a fome e iniciar um processo de perda de peso.
Para algumas pessoas, o medicamento representa justamente a oportunidade de romper um ciclo difícil: fome constante, dificuldade de controlar as porções, tentativas frustradas de dieta e o conhecido efeito “perde e ganha” de peso.
Mas existe uma pergunta que merece ser feita durante esse processo:
“Agora que o medicamento me ajudou a controlar a fome e eu já perdi X kg, como vamos transformar esse resultado em um estilo de vida que eu consiga manter?”
Essa pergunta muda completamente a perspectiva do tratamento.
O objetivo não deveria ser apenas perder peso
Emagrecer é importante para muitas pessoas, principalmente quando a perda de peso contribui para melhorar a saúde metabólica, a mobilidade, a disposição e a qualidade de vida.
Porém, existe uma diferença entre perder peso e construir uma estratégia para manter o resultado.
O medicamento pode ajudar a reduzir a fome e aumentar a saciedade. Isso pode facilitar a adesão a uma alimentação com menor ingestão energética.
Mas o tratamento nutricional continua sendo fundamental.
É durante esse período que podemos trabalhar hábitos que serão importantes independentemente do uso da medicação:
- melhorar a qualidade da alimentação;
- aprender a montar refeições equilibradas;
- adequar o consumo de proteínas;
- aumentar o consumo de vegetais, frutas e fibras;
- organizar horários e rotina alimentar;
- desenvolver uma relação mais tranquila com a comida;
- praticar atividade física;
- preservar ou aumentar a massa muscular;
- e construir estratégias para manutenção do peso.
O medicamento pode ser uma ferramenta. Ele não precisa ser o único pilar do tratamento.
“Mas se eu já emagreci bastante, não está na hora de focar mais na dieta?”
Pode ser o momento de reavaliar o foco do tratamento, sim.
Isso não significa necessariamente que seja hora de interromper o medicamento.
A decisão sobre continuar, reduzir ou suspender um GLP-1 deve ser feita individualmente, junto ao médico que acompanha o tratamento. Para algumas pessoas, a medicação pode fazer parte de uma estratégia de longo prazo, porque a obesidade é uma condição crônica e a recuperação do peso após a interrupção do tratamento pode acontecer.
Estudos mostram justamente essa dificuldade.
No estudo de extensão do STEP 1, participantes que haviam utilizado semaglutida por 68 semanas recuperaram, em média, uma parte significativa do peso perdido após a interrupção do medicamento durante o período de acompanhamento. Isso demonstra que a retirada da medicação não deve ser encarada como o fim do tratamento, mas como uma decisão que precisa considerar a estratégia de manutenção.
Por isso, a pergunta mais importante talvez não seja apenas:
“Quando vou parar o GLP-1?”
Mas sim:
“O que estamos fazendo hoje para que eu consiga preservar esse resultado no futuro?”
O risco de depender apenas do medicamento
Imagine duas pessoas que perderam 15 kg utilizando um medicamento para emagrecimento.
A primeira perdeu peso, mas praticamente não mudou sua rotina alimentar, não desenvolveu uma estratégia de manutenção e não incorporou atividade física. A segunda aproveitou o período de melhor controle da fome para aprender a organizar sua alimentação, adequar a ingestão de proteínas, aumentar o consumo de alimentos nutritivos e começar um programa de musculação .
As duas podem apresentar uma perda de peso semelhante na balança.
Mas o tratamento delas foi muito diferente.
Isso não significa que quem recupera peso depois de suspender o medicamento “não teve disciplina”. O controle do peso envolve mecanismos biológicos, hormonais, comportamentais e ambientais.
Por isso, precisamos abandonar a ideia de que emagrecimento é simplesmente uma questão de força de vontade.
O que precisamos construir é uma estratégia de longo prazo.
E a musculação? Ela pode ser uma grande aliada
Quando emagrecemos, não queremos apenas diminuir o número mostrado pela balança.
Queremos, sempre que possível, reduzir gordura corporal preservando a massa muscular.
É aí que o treinamento de força ganha importância.
A musculação fornece um estímulo importante para a manutenção e o desenvolvimento da massa muscular, especialmente quando associada a uma alimentação adequada e ingestão suficiente de proteínas.
Além disso, aumentar ou preservar a massa muscular pode contribuir para uma composição corporal mais favorável.
Por isso, se você está utilizando um medicamento para emagrecimento, não precisa esperar chegar ao seu “peso ideal” para começar a musculação.
A construção da massa muscular também faz parte do processo de emagrecimento.
A dieta precisa acompanhar o seu novo momento
À medida que o peso diminui, as necessidades nutricionais também podem mudar.
Por isso, aquela dieta que funcionava quando você pesava 10, 15 ou 20 kg a mais pode não ser a mesma estratégia necessária agora.
O planejamento alimentar precisa considerar:
Seu peso atual + sua composição corporal + seu objetivo + sua rotina + seu nível de atividade física + sua fome e saciedade.
E isso é especialmente importante para quem utiliza medicamentos que diminuem o apetite.
Com menos fome, algumas pessoas acabam comendo muito pouco, deixando de consumir proteínas e micronutrientes suficientes ou fazendo refeições pouco equilibradas.
Emagrecer mais rápido nem sempre significa emagrecer melhor.
O objetivo deve ser encontrar uma estratégia que permita perder gordura sem negligenciar a saúde, a massa muscular e a qualidade da alimentação.
E quando chegar ao peso desejado?
Essa é uma das questões que mais deveriam ser discutidas durante o tratamento.
Porque chegar ao peso desejado não significa que o tratamento terminou.
Na verdade, começa uma nova fase:
A fase da manutenção.
É nesse momento que precisamos descobrir:
- Qual quantidade de comida mantém meu peso?
- Como devo organizar minhas refeições?
- Qual quantidade de proteína preciso consumir?
- Como manter a musculação?
- Como lidar com períodos de maior fome?
- O que fazer em viagens, festas e férias?
- Como identificar rapidamente um possível reganho de peso?
- O medicamento continuará fazendo parte do tratamento?
- Se for retirado, qual será a estratégia de acompanhamento?
Ter essas respostas antes de interromper a medicação pode ser muito mais importante do que simplesmente atingir um determinado número na balança.
O GLP-1 pode ser uma ferramenta, não necessariamente o plano inteiro
- Não precisamos colocar medicamento e alimentação em lados opostos.
- Uma estratégia mais completa pode utilizar diferentes ferramentas ao mesmo tempo:
- Medicamento: ajuda no controle da fome e da saciedade.
- Nutrição: fornece energia e nutrientes adequados e ensina estratégias alimentares sustentáveis.
- Proteína adequada: contribui para a manutenção da massa muscular.
- Musculação: oferece estímulo para preservar e desenvolver músculos.
- Atividade física: contribui para saúde cardiovascular, metabólica e manutenção do peso.
- Acompanhamento profissional: permite ajustar o tratamento conforme as mudanças acontecem.
- Essa combinação pode ser muito mais interessante do que pensar no medicamento como uma solução isolada.
Talvez o momento seja de mudar a pergunta
Em vez de pensar:
“Até quando vou precisar do medicamento?”
podemos começar a pensar:
“O que preciso aprender e construir enquanto o medicamento está me ajudando?”
Essa mudança de perspectiva pode ser muito importante.
Se você já emagreceu X kg, talvez este seja um excelente momento para sentar com sua equipe de saúde e revisar o planejamento.
Não necessariamente para interromper o medicamento.
Mas para avaliar qual é o próximo passo.
Pode ser o momento de ajustar sua alimentação ao peso atual, estabelecer uma rotina de musculação, avaliar sua composição corporal, garantir uma ingestão adequada de proteínas e começar a estruturar a fase de manutenção.
Emagrecer é uma etapa. Aprender a manter é parte do tratamento.
Os medicamentos para emagrecimento podem ser ferramentas extremamente importantes para algumas pessoas. Mas o resultado que realmente queremos não é apenas ver um número menor na balança.
Queremos que esse novo peso venha acompanhado de mais saúde, força, autonomia, qualidade alimentar e uma rotina que seja possível manter na vida real.
E essa construção começa antes de chegar ao peso final.
Se o medicamento ajudou você a controlar a fome e perder peso, aproveite esse momento para construir aquilo que continuará existindo mesmo quando a estratégia medicamentosa mudar.
Referências
1. Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2022;24(8):1553-1564.
2. Obesity Canada. Canadian Adult Obesity Clinical Practice Guideline – Pharmacotherapy. Atualização de 2025.
3. American College of Sports Medicine. Physical Activity Guidelines for Americans / Exercise and Physical Activity for Weight Management.
4. American Association of Clinical Endocrinology. Diretrizes e recomendações para tratamento abrangente da obesididade.
Inez & Sara

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