Você já deve ter notado que nas farinhas de trigo sempre está indicado que elas foram enriquecidas cim ferro e ácido fólico, mas qual o motivo disso? Por que essas farinhas são enriquecidas com esses nutrientes?
O enriquecimento de alimentos é uma estratégia adotada no século XX e recomendada pea Organização Mundial da Saúde para reduzir defiencias nutricionais de micronutrientes.
Para entender melhor os motivos dessa estratégia, é preciso saber a função desses dois nutrientes na nossa alimentação
1. Ferro
Participa da formação da hemoglobina, proteína presente nos glóbulos vermelhos.
Ajuda no transporte de oxigênio pelo sangue para todo o organismo.
Contribui para o funcionamento do sistema imunológico.
2. Ácido fólico (vitamina B9)
Participa da formação e renovação das células.
É essencial para a produção do DNA e dos glóbulos vermelhos.
É muito importante durante a gravidez, pois ajuda no desenvolvimento do sistema nervoso do bebê.
No Brasil, o enriquecimento obrigatório de farinhas foi implementada pelo Ministério da Saúde com a RDC n° 344 de 2002 como uma estratégia de prevenção de DTN (Defeitos no Tubo Neural), ou seja, a má formação do tubo neural em fetos, e anemia por deficiencia de ferro, com as empresas tendo um período de 2 anos para se adaptarem. Foi atualizada na RDC n°150 de 2017, onde foram estabelidas quantidades mínimas e máximas, além da especificação das fontes dos nutrientes suplementados e trazer na rótulo suas quantidades e a razão dessa estratégia. Teve sua última atualização na n°604 de 2022 para consolidar melhor essa legislação, sem trazer nenhuma grande mudança.
No Brasil, após o enriquecimento, foi feito um estudo onde foi observado uma redução de aproximadamente 30% dos casos de DTN nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Essa informação foi obtida comparando os registros de nacimento antes (2001-2004) e depois (2005-2014) do enriquecimento obrigatório. Nele, durante o período pré-enriquecimento, foram registrados 0,79 casos de DTN por mil nascidos vivos, enquanto, no período pós-enriquecimento, foram encontrados 0,55 casos por mil nascidos vivos.
Por outro lado, estudos realizados com crianças em idade pré-escolar não encontraram diferenças significativas nos níveis de hemoglobina após a implementação da medida. Isso demonstra que os resultados podem variar conforme o grupo populacional estudado.
Outro ponto importante é a qualidade da fortificação. Dados de monitoramento da Anvisa referentes ao período de 2019 a 2021 identificaram que uma parcela significativa das farinhas analisadas apresentava concentrações de ferro fora dos limites estabelecidos pela legislação, evidenciando dificuldades no controle e na padronização do enriquecimento.
Além disso, a quantidade de ferro presente no alimento não é o único fator determinante para sua eficácia. A biodisponibilidade, ou seja, a capacidade de o organismo absorver e utilizar esse mineral, também influencia diretamente os resultados.
Diante dessas evidências, podemos concluir que a fortificação das farinhas representa uma importante estratégia de prevenção da deficiência de ferro, mas não é suficiente, isoladamente, para eliminar a anemia no Brasil.
Uma alimentação equilibrada, o acompanhamento nutricional, a suplementação quando necessária e o monitoramento das políticas públicas continuam sendo fundamentais para melhorar o estado nutricional da população.
Referências
RDC nº 344/2002, Anvisa https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/7574996028/resolucao-da-diretoria-colegiada-344-02.
RDC nº 150/2017, Anvisa https://bibliotecadigital.anvisa.gov.br/jspui/handle/anvisa/206.
RDC nº 604/2022, Anvisa https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-rdc-n-604-de-10-de-fevereiro-de-2022-380753427.
- Perguntas e respostas sobre o enriquecimento de farinhas, Anvisa https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/alimentos/perguntas-e-respostas-arquivos/enriquecimento-de-farinhas-de-trigo-e-de-milho.pdf/@@display-file/file
- ASSUNÇÃO, Maria Cecília Formoso; SANTOS, Iná S.; BARROS, Aluísio J. D.; GIGANTE, Denise Petrucci; VICTORA, Cesar Gomes. Efeito da fortificação de farinhas com ferro sobre anemia em pré-escolares, Pelotas, RS. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 41, n. 4, p. 539-548, 2007. DOI: https://doi.org/10.1590/S0034-89102006005000031
- SANTOS, L. M. P.; LECCA, R. C. R.; CORTEZ-ESCALANTE, J. J.; SANCHEZ, M. N.; RODRIGUES, H. G. Prevention of neural tube defects by the fortification of flour with folic acid: a population-based retrospective study in Brazil. Bulletin of the World Health Organization, v. 94, n. 1, p. 22–29, 2016. DOI: https://doi.org/10.2471/BLT.14.151365
Elaborado por Paulo Henrique- estagiário de Nutrição

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