quarta-feira, 10 de novembro de 2010

HIPONATREMIA EM ATLETAS

A hiponatremia grave em atletas é rara mas isso já causou a morte de maratonistas e de soldados militares. Por esse motivo, os profissionais da área de medicina esportiva devem entender as causas da hiponatremia e os passos que devem ser seguidos para se reduzir o risco.

- A hiponatremia ocorre quando a concentração sangüínea de sódio atinge níveis abaixo da faixa de normalidade, causando um edema cerebral rápido e perigoso, que pode causar crises, coma e a morte.

- Apesar de a hiponatremia ser freqüentemente associada ao exercício prolongado, ela também pode ocorrer durante o repouso quando um excesso de fluidos é ingerido rápido demais.

- A ingestão excessiva de fluidos é um fator de risco importante para causar a hiponatremia mas é possível que essa ocorra - sem a ingestão excessiva - em atletas desidratados durante o exercício muito prolongado como resultado de perdas elevadas de sódio no suor.

- O risco de hiponatremia pode ser reduzido garantindo-se que a ingestão de fluidos não exceda a perda via suor e pela ingestão de bebidas ou alimentos contendo sódio, o que ajuda a repor o sódio perdido no suor.

- Para a maioria dos atletas, a desidratação ainda é o principal desafio para a homeostase fisiológica e para o desempenho, mas a hiponatremia deve ser reconhecida como uma possível ameaça para aqueles atletas que ingerem mais fluidos que a quantidade perdida no suor.

No domingo, 02 de dezembro de 2001, os quadrinhos do jornal Chicago Tribune traziam a tira de Peanuts abordando a hiponatremia. Snoopy, o médico da equipe, corria para o campo e deduzia que Woodstock apresentava hiponatremia. Snoopy acertadamente dizia que o desequilíbrio eletrolítico poderia ser corrigido através da combinação correta de água e sal. Woodstock podia beber água mas Snoopy havia salpicado sal nas suas penas. Nesse caso, a licença poética dos quadrinhos foi contrária às boas práticas médicas, apesar de Woodstock obviamente sobreviver ao tratamento inadequado oferecido por Snoopy. O fato de um distúrbio tão raro ter sido apresentado em um quadrinho tão popular mostra que há um interesse crescente pelo tópico, pelo público em geral e pelos profissionais de saúde que atuam na área esportiva.

O fato de a hiponatremia poder ser fatal a atletas que não apresentam nenhum outro tipo de patologias é motivo suficiente para fazer com que os profissionais de saúde esportiva conheçam quais são os fatores de risco e como esse distúrbio pode ser evitado. Apesar de a incidência de hiponatremia fatal ser rara, relatos de caso e dados descritivos sugerem que a hiponatremia não fatal é comum. Estimativas da freqüência de hiponatremia associada ao exercício prolongado (ex.: maratonas e triatlos Ironman (distância Ironman) variam bastante e em alguns casos atingem mais de 30% dos atletas testados (O'Toole e cols.,1995). Entretanto, dados do exército americano indicam que a incidência de hiponatremia é de apenas 0,10 por 1.000 soldados por ano (Craig, 1999), bem abaixo dos índices relatados em atletas (Davis e cols.1999; O'Toole e cols.,1995; Speedy e cols.,1999). Essa ampla disparidade na incidência talvez reflita, parcialmente, as diferenças observadas nos achados de caso e na sua gravidade. Por exemplo, os estudos em atletas geralmente trabalham com um subconjunto, aqueles que foram atendidos pelo serviço médico. Alguns desses talvez tenham apresentado apenas uma hiponatremia leve, sem a presença de sintomas definidos. As estatísticas de incidência no exército e alguns estudos em atletas baseiam-se em casos de hospitalização, portanto casos leves de hiponatremia podem ter sido perdidos. Precisamos realizar estudos de coorte mais amplos para melhor caracterizarmos o risco de hiponatremia em atletas. Mesmo assim, os dados atuais justificam o fato de a equipe médica considerar a hiponatremia uma possível causa de colapso durante ou após o exercício físico prolongado.

REVISÃO DE TRABALHOS CIENTÍFICOS

O que é hiponatremia?

A hiponatremia é um desequílibrio hidroeletrolítico que resulta na queda anormal da concentração plasmática de sódio (<135 mmol/l; normal = 136-142 mmol/l). A manutenção desses baixos valores afeta o balanço osmótico na barreira hematoencefálica, causando a rápida entrada de água no cérebro, o edema cerebral e uma cascata de respostas neurológicas, cada vez mais graves (confusão, crises, coma), que podem culminar com a morte em conseqüência da lesão do tronco cerebral. Quanto mais rápida for a queda do nível de sódio e quanto mais baixo for esse valor, maior o risco de as conseqüências ameaçarem a vida. Uma queda na concentração plasmática de sódio para 125-135 mmol/l geralmente resulta em sintomas não perceptíveis ou em distúrbios gastrointestinais relativamente moderados, tais como a distensão ou náusea moderada. Abaixo de 125 mmol/l, os sintomas tornam-se mais graves e incluem cefaléia latejante, vômitos, sibilos, edema de mãos e pés, inquietação, fadiga incomum, confusão e desorientação (Adrogué & Madias, 2000). Quando a concentração plasmática de sódio atinge valores menores que 120 mmol/l, é mais provável que haja a ocorrência de crises, parada respiratória, coma, danos cerebrais permanentes e morte. Entretanto, alguns atletas sobreviveram à hiponatremia que atingiu valores <115 mmol/l (Backer e cols.,1993), enquanto outros foram a óbito mesmo com níveis plasmáticos de sódio >120 mmol/l (Gardner, 2002a).

A hiponatremia que acomete os atletas é mais freqüentemente caracterizada pela hipoosmolalidade (hipotonicidade) do plasma. Essa condição é conhecida como hipotônica ou hiponatremia dilucional, ou seja, há mais água que o normal para a quantidade de substâncias dissolvidas no plasma. A hiponatremia também pode ocorrer com a normo ou hiper osmolalidade plasmática. A hiponatremia isotônica (relação normal entre a água e as substâncias dissolvidas) é rara, mas pode ser a conseqüência da retenção de fluidos isotônicos que não contêm sódio no compartimento de fluidos extracelular, o que é relevante para alguns procedimentos hospitalares (ex.: infusões isotônicas de manitol) mas não nos esportivos. Ahiponatremia hipertônica (menos água que o normal para a quantidade de substâncias dissolvidas no plasma) pode ocorrer na presença de hiperglicemia grave ou de carga de glicerol (Freund e cols.,1995) quando a água retida no espaço vascular é suficiente para reduzir a concentração sangüínea de sódio temporariamente.

http://www.gssi.com.br/artigo/63/sse-37-hiponatremia-em-atletas

Postado por: Daniela de Barba


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