quarta-feira, 23 de setembro de 2026

 






 

Efeito rebote após o uso de GLP-1: como reduzir o risco de recuperar o peso

Os medicamentos que atuam sobre o sistema das incretinas, como os agonistas do receptor de GLP-1 e medicamentos com ação combinada, transformaram o tratamento do excesso de peso e da obesidade. Eles podem reduzir significativamente a fome, aumentar a saciedade e contribuir para uma perda de peso importante.

Mas existe uma questão que merece atenção: o que acontece quando o medicamento é reduzido ou suspenso?

Estudos mostram que a recuperação de parte do peso perdido pode ocorrer após a interrupção do tratamento. Por isso, o período de uso da medicação deve ser aproveitado também para construir hábitos alimentares e de atividade física que possam ser mantidos a longo prazo.

O que é o efeito rebote?

O chamado "efeito rebote" é utilizado popularmente para descrever o reganho de peso após a perda de peso.

No caso dos medicamentos para obesidade, é importante entender que isso não significa que o metabolismo tenha sido "estragado". O medicamento ajuda a controlar mecanismos relacionados à fome e à saciedade. Quando sua ação é retirada, esses efeitos podem diminuir e o apetite pode voltar a aumentar.

Além disso, o próprio processo de emagrecimento provoca adaptações no organismo que podem favorecer a recuperação do peso.

Um exemplo importante vem do estudo de extensão do STEP 1. Após a interrupção da semaglutida, os participantes recuperaram, em média, cerca de dois terços do peso que haviam perdido no período de tratamento, ao longo de um ano. (PubMed)

Resultados semelhantes foram observados com a tirzepatida. No estudo SURMOUNT-4, pessoas que interromperam a tirzepatida após um período inicial de tratamento recuperaram, em média, 14% do peso durante os 52 semanas seguintes, enquanto aquelas que continuaram o medicamento mantiveram a perda e perderam peso adicional. (JAMA Network)

Esses dados não significam que todo paciente necessariamente recuperará o peso perdido. Eles mostram, porém, que a manutenção do emagrecimento precisa ser planejada.

Como reduzir o risco de reganho de peso?

Não existe uma estratégia capaz de garantir que o peso não volte a aumentar. Entretanto, alguns pilares são especialmente importantes.

1. Proteína: uma aliada durante o emagrecimento

Durante a perda de peso, não queremos apenas diminuir o número da balança. Um dos objetivos é reduzir gordura corporal preservando o máximo possível de massa muscular.

A proteína desempenha papel importante nesse processo.

Por isso, é interessante incluir fontes de proteína nas principais refeições, como:

ovos;
frango;
peixes;
carnes magras;
leite, iogurte e outros laticínios;
feijão;
lentilha;
grão-de-bico;
tofu e outras fontes vegetais.

A quantidade adequada de proteína não é igual para todas as pessoas. Ela deve considerar peso, idade, composição corporal, nível de atividade física, objetivo e condições de saúde.

Em pessoas que praticam musculação e estão em processo de emagrecimento, uma ingestão proteica adequada pode contribuir para a preservação da massa magra.

2. Musculação não deve ser deixada para depois

Se existe uma atividade que merece destaque durante o emagrecimento, é o treinamento de força.

A musculação fornece estímulo para manutenção e desenvolvimento da massa muscular. Isso é especialmente relevante quando existe déficit calórico e perda de peso.

Além disso, manter uma rotina de exercícios ajuda a transformar o emagrecimento em um processo mais completo, que não depende exclusivamente da alimentação ou do medicamento.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que adultos realizem atividades de fortalecimento muscular envolvendo os principais grupos musculares em pelo menos dois dias por semana, além da atividade aeróbica recomendada. (Organização Mundial da Saúde)

Na prática, a frequência e o tipo de treinamento devem ser individualizados.

3. Evite transformar o tratamento em uma dieta extremamente restritiva

Um erro que pode acontecer durante o uso de medicamentos que reduzem o apetite é pensar:

"Se não estou com fome, posso comer muito pouco."

Nem sempre.

A redução excessiva da ingestão alimentar pode dificultar o consumo adequado de proteínas, fibras, vitaminas e minerais e pode contribuir para uma perda indesejada de massa muscular.

Mesmo com pouco apetite, é importante priorizar a qualidade nutricional das refeições.

Uma estratégia simples é montar o prato com:

½ prato de verduras e legumes

¼ do prato de uma fonte de proteína

¼ do prato de carboidratos, como arroz, batata, mandioca ou outros cereais e tubérculos.

Feijão e outras leguminosas também podem fazer parte da refeição.

A quantidade, naturalmente, deve ser ajustada às necessidades individuais.

4. Aprenda a manter uma alimentação saudável mesmo quando a fome voltar

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes.

Enquanto o medicamento está atuando, controlar a alimentação pode parecer mais fácil porque a fome e a vontade de comer podem estar reduzidas.

Após a redução ou suspensão do medicamento, o apetite pode aumentar.

Por isso, o tratamento deve ser uma oportunidade para desenvolver comportamentos que continuem funcionando mesmo quando o efeito sobre o apetite diminuir.

Alguns exemplos:

  1. estabelecer horários e uma rotina alimentar;
  2. consumir proteína adequadamente;
  3. aumentar o consumo de vegetais e frutas;
  4. incluir alimentos ricos em fibras;
  5. evitar longos períodos de restrição seguidos de episódios de exagero alimentar;
  6. aprender a reconhecer sinais de fome e saciedade;
  7. manter atividade física regularmente.

O objetivo não é criar uma alimentação perfeita, mas uma alimentação sustentável.

E os carboidratos?

Carboidrato não precisa ser eliminado para emagrecer.

Arroz, feijão, batata, mandioca, aveia, frutas e outros alimentos ricos em carboidratos podem fazer parte de uma alimentação equilibrada.

O mais importante é considerar quantidade, qualidade, contexto da refeição e necessidades individuais.

Uma dieta que elimina grupos alimentares desnecessariamente pode ser difícil de manter a longo prazo.

E os alimentos "proibidos"?

Outro erro comum é pensar que, depois de emagrecer, será necessário nunca mais comer pizza, chocolate, sobremesa ou outros alimentos mais calóricos.

Uma alimentação sustentável não precisa funcionar dessa maneira.

O problema geralmente não é consumir ocasionalmente um alimento mais calórico, mas quando alimentos com alta densidade energética passam a ocupar uma parcela muito grande da alimentação diária.

A estratégia deve ser aprender a consumir esses alimentos com equilíbrio, sem transformar uma refeição fora da rotina em um período prolongado de exageros.

O acompanhamento após o medicamento é importante

O tratamento da obesidade não deve terminar no momento em que a pessoa atinge determinado número na balança.

A fase de manutenção também merece acompanhamento.

Peso, circunferência abdominal, composição corporal, fome, saciedade, alimentação e atividade física podem ser monitorados ao longo do tempo.

Se houver aumento progressivo do peso após a redução ou suspensão do medicamento, é importante conversar com o médico e com o nutricionista. Em alguns casos, a obesidade é uma condição crônica e pode exigir tratamento de longo prazo.

Uma análise publicada recentemente no JAMA Internal Medicine também reforça que o reganho de peso após a retirada da tirzepatida pode estar associado à reversão de parte das melhorias cardiometabólicas obtidas durante a perda de peso. (JAMA Network)

O segredo não é apenas perder peso — é aprender a mantê-lo

Os medicamentos GLP-1 podem ser ferramentas importantes no tratamento do excesso de peso e da obesidade. Entretanto, a manutenção dos resultados envolve muito mais do que controlar o apetite.

Uma estratégia completa deve considerar:

🥩 Proteína adequada

🥗 Alimentação equilibrada e sustentável

🏋️ Musculação e preservação da massa muscular

🚶 Atividade física regular

😴 Sono adequado

👩‍⚕️ Acompanhamento nutricional e médico

O objetivo não deve ser simplesmente "parar o GLP-1 sem engordar". O foco deve estar em construir uma estratégia de saúde que seja sustentável antes, durante e depois do tratamento.

E uma recomendação fundamental: a redução, suspensão ou manutenção de medicamentos para emagrecimento deve ser discutida com o médico responsável pelo tratamento. Não é recomendado alterar doses ou interromper a medicação por conta própria.

Referências

Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2022;24(8):1553–1564. (PubMed)
Aronne LJ, Sattar N, Horn DB, et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2024;331(1):38–48. (JAMA Network)
World Health Organization. WHO Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour. Geneva: WHO; 2020. (Organização Mundial da Saúde)
Horn DB, Linetzky B, Davies MJ, et al. Cardiometabolic Parameter Change by Weight Regain on Tirzepatide Withdrawal in Adults With Obesity: A Post Hoc Analysis of the SURMOUNT-4 Trial. JAMA Internal Medicine. 2025. (JAMA Network)

Inez

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