A nutrição esportiva moderna não deveria tratar carboidrato e hidratação como metas fixas todos os dias. O princípio mais útil é “nutrir a sessão”: aumentar a disponibilidade de energia e carboidrato quando a demanda do treino é alta e reduzir de forma proporcional nos dias de menor carga — sem criar um déficit energético crônico que favoreça a RED-S.
A literatura de consenso da International Olympic Committee (IOC) atualmente define RED-S como uma síndrome decorrente de baixa disponibilidade energética (LEA) problemática e prolongada, capaz de afetar metabolismo, função reprodutiva, saúde óssea, imunidade, síntese de glicogênio, sistema cardiovascular/hematológico, bem-estar e desempenho, em atletas de ambos os sexos. (British Journal of Sports Medicine)
1. O conceito central: carboidrato periodizado, energia não periodizada de forma agressiva
Existe uma diferença importante entre:
Periodizar carboidratos de acordo com o treino;
Restringir energia de forma recorrente.O primeiro pode ser uma estratégia esportiva legítima. O segundo, quando excessivo ou prolongado, pode contribuir para LEA/RED-S.
A disponibilidade de carboidrato pode ser manipulada conforme o objetivo da sessão. Para treinos nos quais queremos alta qualidade, intensidade ou grande volume, a prioridade é chegar com glicogênio suficiente e repor carboidrato adequadamente depois. Já em sessões leves, curtas ou técnicas, a necessidade de carboidrato durante o exercício é muito menor. (PubMed)
Importante: reduzir carboidrato em um dia de descanso não significa necessariamente reduzir drasticamente as calorias. Proteína, gorduras, micronutrientes e energia total continuam necessários para recuperação e funções fisiológicas.
2. Estratégia prática conforme o tipo de sessão
Claro — aqui está a tabela corrigida, organizada e pronta para copiar e colar:
Sessão Estratégia de carboidrato Durante Hidratação Descanso Moderado/baixo em relação a dias pesados, mantendo energia adequada — Hidratação normal Treino leve <60 min Moderado; geralmente não precisa de grande carga prévia Água conforme sede/contexto Normalmente água é suficiente Força/hipertrofia Moderado–alto conforme volume e proximidade de outras sessões Geralmente não é necessário Individualizada Intervalado/HIIT Alto; priorizar glicogênio CHO pode ser útil se sessão longa Individualizada Endurance 60–120 min Alto ~30–60 g/h Planejada pela taxa de suor Endurance >2 h Muito alto Frequentemente ~60–90 g/h, individualizando tolerância Líquido + sódio + CHO Sessão longa + calor Muito alto CHO + líquido + eletrólitos Maior prioridade Os valores não são uma prescrição universal: peso corporal, duração, intensidade, temperatura, taxa de suor, sexo, calendário de treinos e tolerância gastrointestinal modificam a estratégia.
3. Dias de endurance: quando o carboidrato realmente sobe
Para atletas de endurance, referências clássicas colocam aproximadamente 5–7 g/kg/dia como uma faixa útil para treinamento geral e cerca de 7–10 g/kg/dia quando a demanda de endurance aumenta. Em períodos de carga muito elevada ou preparação específica para competição, valores ainda maiores podem ser utilizados. (PubMed)
Por exemplo, para um atleta de 70 kg:
5 g/kg = 350 g/dia
7 g/kg = 490 g/dia
8 g/kg = 560 g/dia
10 g/kg = 700 g/diaNão significa que 700 g sejam necessários simplesmente porque o atleta corre ou pedala. É a carga do treinamento que determina a necessidade.
Antes
Quando a sessão é longa ou intensa, aumentar carboidrato nas horas anteriores melhora a disponibilidade de glicogênio.
Uma referência prática frequentemente utilizada é 1–4 g/kg nas 1–4 horas anteriores, ajustando quantidade e proximidade ao treino conforme tolerância gastrointestinal e duração/intensidade. (PubMed)
Exemplo para 70 kg:
1–4 g/kg = 70–280 g de carboidrato no período pré-treino.
Não é necessário utilizar sempre o extremo superior.
4. Durante o treino: “combustível por hora”
A necessidade durante o exercício depende fortemente da duração.
Até ~60 minutos
Em muitas sessões, especialmente de intensidade baixa/moderada, não é obrigatório ingerir carboidrato durante o treino.
~60–120 minutos
Uma faixa de aproximadamente 30–60 g/h é uma referência tradicional e continua sendo útil para muitas sessões prolongadas. (PubMed)
>2 horas
Atletas de endurance podem se beneficiar de quantidades maiores, frequentemente 60–90 g/h, desde que tenham treinado o trato gastrointestinal para isso.
Isso é particularmente relevante porque a capacidade de absorção intestinal passa a ser um fator limitante em exercícios prolongados. (PubMed)
Uma estratégia poderia ser:
90 g CHO/h
divididos, por exemplo, em:
bebida esportiva;
gel;
carboidrato sólido;
combinação de glicose/maltodextrina + frutose.A escolha não precisa ser “natural versus suplemento”; o critério principal é tolerância, praticidade e capacidade de atingir a meta.
5. E nos dias de descanso?
Aqui ocorre um erro comum: interpretar “carboidrato periodizado” como “dia sem treino = comer o mínimo possível”.
Não.
O objetivo é que o consumo acompanhe a demanda energética, mas mantendo disponibilidade energética suficiente.
Por exemplo:
Dia longo
70 kg → 8 g/kg CHO→ 560 g de carboidratoDia leve
70 kg → 4–5 g/kg→ 280–350 gDescanso
Pode ser menor novamente, dependendo do gasto e do objetivo.
Mas a redução deve vir principalmente da menor demanda de combustível para o exercício — não de uma restrição agressiva de calorias.
Essa distinção é fundamental para prevenção de RED-S.
6. RED-S: o problema não é simplesmente “comer pouco carboidrato”
A RED-S está relacionada principalmente à baixa disponibilidade energética.
A equação conceitual utilizada pelo IOC é:
Disponibilidade energética = (ingestão energética − gasto do exercício) / massa livre de gordura
expressa em kcal/kg de massa livre de gordura/dia. (British Journal of Sports Medicine)
Portanto, imagine:
Atleta A
ingere 3.000 kcal
gasta 700 kcal no treinamento→ sobram 2.300 kcal para as funções fisiológicas.
Atleta B
ingere 2.200 kcal
gasta 700 kcal no treinamento→ sobram 1.500 kcal.
Mesmo que ambos tenham consumido “a mesma quantidade de proteína” ou “o mesmo percentual de carboidrato”, a situação energética é completamente diferente.
É por isso que calorias não podem ser periodizadas exclusivamente para acompanhar o treino sem considerar as necessidades fisiológicas do organismo.
7. RED-S e o “paradoxo do atleta disciplinado”
Um cenário típico é:
aumenta o volume de treino → mantém a mesma dieta → reduz carboidratos para controlar peso → aumenta o gasto → começa a perder peso → continua treinando → recuperação piora.
O atleta pode inicialmente interpretar:
“Estou ficando mais seco e treinando mais.”
Mas, com baixa disponibilidade energética persistente, podem aparecer:
redução da recuperação;
queda de desempenho;
fadiga;
alterações menstruais em mulheres;
alterações hormonais em homens e mulheres;
piora da saúde óssea;
maior risco de lesões;
alterações imunológicas;
pior síntese de glicogênio;
alterações cardiovasculares/metabólicas;
alterações psicológicas e de bem-estar.Essas manifestações estão descritas no consenso IOC 2023 sobre RED-S. (British Journal of Sports Medicine)
E um ponto importante: RED-S não é exclusivamente uma condição feminina. O consenso atual inclui atletas masculinos e femininos. (British Journal of Sports Medicine)
8. Hidratação também deve acompanhar o treino
Hidratação é ainda mais individual do que carboidrato.
A recomendação moderna não é simplesmente:
“todo atleta deve beber X litros por hora”.
A taxa de suor varia enormemente entre indivíduos e também muda com temperatura, umidade, intensidade, roupa e aclimatação. O ACSM recomenda estratégias individualizadas baseadas, entre outras coisas, na estimativa da taxa de suor. (PubMed)
Uma maneira simples de estimar
Pese-se antes e depois de um treino conhecido.
Exemplo:
Antes: 70,0 kgDepois: 69,2 kgBebeu: 0,8 LUrinou: 0 LDuração: 1 hA perda aproximada de suor seria:
0,8 kg + 0,8 L = 1,6 L/h
Portanto, essa pessoa tem uma taxa de suor aproximada de 1,6 L/h naquele ambiente e naquela intensidade.
Isso não significa necessariamente que deva beber exatamente 1,6 L/h. A estratégia deve evitar tanto desidratação excessiva quanto hiper-hidratação, que pode causar hiponatremia. (PubMed)
9. Hidratação conforme o tipo de treino
Descanso
Não há necessidade de transformar o dia de descanso em uma competição de ingestão de água.
Objetivo:
hidratação habitual + reposição das perdas anteriores.
Treino curto
Normalmente:
água + ingestão habitual
é suficiente, especialmente em ambiente ameno.
Endurance prolongado
Aqui entra:
água + carboidrato + sódio, dependendo da duração, suor e ambiente.
O ACSM destaca que bebidas contendo carboidrato e eletrólitos podem apresentar benefícios em determinadas situações de exercício prolongado e recomenda individualizar a reposição porque a taxa de suor e a concentração de eletrólitos no suor variam muito. (PubMed)
Calor
A prioridade aumenta significativamente.
O atleta deve considerar:
taxa de suor;
sódio perdido no suor;
temperatura;
umidade;
duração;
intensidade;
acesso a líquidos.10. Não existe benefício em “beber o máximo possível”
Esse ponto merece destaque.
Desidratação excessiva prejudica o desempenho, mas hiper-hidratação também é perigosa.
O posicionamento da National Athletic Trainers' Association enfatiza justamente os dois extremos: hipohidratação e ingestão excessiva podem comprometer desempenho e segurança. (PubMed)
Portanto, o objetivo não é necessariamente terminar cada treino com exatamente o mesmo peso de antes.
É:
manter a hidratação dentro de uma faixa individualmente adequada sem provocar perdas excessivas nem ganho de peso por excesso de líquidos.
11. Como estruturarar uma semana
Imagine um atleta de endurance:
Dia Treino CHO Estratégia Seg Descanso ↓ Alimentação normal, sem restrição agressiva Ter Intervalado 75 min ↑ Pré + CHO durante se necessário Qua Rodagem leve 45 min ↔/↓ Menor demanda de combustível Qui Intervalado intenso ↑↑ Alta disponibilidade de CHO Sex Descanso ↓ Recuperação, proteína, micronutrientes e energia adequada Sáb Longão 2–4 h ↑↑↑ Pré + 60–90 g/h conforme tolerância Dom Recuperação ↔/↑ Reposição do glicogênio se houver nova sessão A lógica é:
treino difícil → combustível alto
treino fácil → combustível menor
treino longo → combustível durante
descanso → menor demanda, mas não “jejum energético”
dias consecutivos de carga → atenção especial à recuperação
12. Um detalhe importante: não transformar “train low” em estratégia permanente
Existe literatura investigando treinar ocasionalmente com baixa disponibilidade de carboidrato para estimular determinadas adaptações metabólicas. A literatura reconhece que estratégias de manipulação de carboidrato podem influenciar adaptações ao treinamento. (PubMed)
Mas isso deve ser muito diferente de:
“Vou treinar sempre sem carboidrato para queimar mais gordura.”
Sessões de alta intensidade, competição e treinos-chave geralmente são justamente os momentos em que alta disponibilidade de carboidrato é desejável.
E, principalmente, uma estratégia de baixa disponibilidade de carboidrato não deve produzir baixa disponibilidade energética crônica.
13. Checklist de prevenção de RED-S
Para um atleta em treinamento intenso, eu monitoraria:
Energia
ingestão energética compatível com a carga;
tendência de peso e composição corporal;
fome/saciedade;
recuperação entre sessões.Carboidrato
quantidade diária;
distribuição em torno dos treinos;
carboidrato durante sessões longas;
reposição entre sessões próximas.Recuperação
qualidade do sono;
fadiga;
desempenho;
dor muscular;
frequência de lesões.Saúde
alterações menstruais quando aplicável;
libido;
infecções recorrentes;
lesões ósseas;
alterações gastrointestinais;
alterações de humor/bem-estar.O IOC enfatiza que RED-S é um quadro clínico complexo e que a avaliação deve considerar múltiplos sistemas e fatores individuais, e não simplesmente um número isolado de calorias. (British Journal of Sports Medicine)
14. A regra prática que resume tudo
Eu usaria este modelo:
Quanto maior a demanda da sessão, maior a disponibilidade de carboidrato e maior a necessidade de planejamento da hidratação.
Mas:
A redução de combustível nos dias fáceis não deve se transformar em baixa disponibilidade energética crônica.
Em termos práticos:
Dia de descanso:↓ carboidrato conforme menor gasto↔ proteína↔ micronutrientes↔ hidratação normal→ energia suficienteTreino intenso:↑ carboidrato antes↑ carboidrato totalhidratação individualizada→ alta disponibilidade de combustívelLongão:↑↑ carboidrato prévio30–60 g/h em sessões prolongadas mais curtas~60–90 g/h quando >2 h e toleradolíquido + sódio conforme suor/ambiente→ treinar também o intestinoSemana de alta carga:↑ ingestão energética global↑ carboidrato↑ recuperação→ atenção redobrada à RED-SEsse é o ponto central: periodizar o combustível do treino, não periodizar a disponibilidade energética a ponto de deixar o organismo cronicamente “no vermelho”.
Referências principais
Mountjoy M, et al. 2023 IOC consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). British Journal of Sports Medicine. 2023;57:1073–1097. (British Journal of Sports Medicine)Thomas DT, Erdman KA, Burke LM. Nutrition and Athletic Performance. J Acad Nutr Diet. 2016;116:501–528. (PubMed)Burke LM, Hawley JA, Wong SHS, Jeukendrup AE. Carbohydrates for training and competition. J Sports Sci. 2011;29:S17–S27. (PubMed)Sawka MN, et al. ACSM Position Stand: Exercise and Fluid Replacement. Med Sci Sports Exerc. 2007;39:377–390. (PubMed)National Athletic Trainers' Association. Fluid Replacement for the Physically Active. J Athl Train. 2017. (PubMed)Observação clínica: se houver suspeita de RED-S, especialmente com perda de peso involuntária, alterações menstruais/libido, fraturas por estresse, fadiga persistente ou queda inexplicada de performance, a abordagem deve ser feita com médico e nutricionista esportivo; não é apropriado tentar corrigir um quadro de RED-S apenas ajustando carboidratos por conta própria.
Inez & Sara


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